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Anos depois da proibição da venda de refeições em carros, na Cidade de Maputo, a prática continua. O Município de Maputo diz que está ainda a rever a postura sobre a matéria e já tem ideia do tipo de viaturas necessárias para actividade. Mas os comerciantes receiam que os meios propostos sejam onerosos.

A nova postura camarária ainda está em discussão e deverá ser aprovada no próximo ano, mas o facto é que, a partir de 2022, só viaturas como as  chamadas furgonetas poderão ser aceites para vender comida nas ruas e avenidas da Cidade de Maputo.

Na verdade, isso nem é de hoje (no sentido de actulidade). Nos tempos passados, a Inspecção Nacional de Actividades Económicas (INAE) já estava a tentar combater o fenómeno e explicou, naquela altura, que a proibição de venda de comida em carros tinha como fundamento a falta de licença para o exercício da actividade, cartão de saúde e questões de higiene, e chegou a dar ultimato aos vendedores.

Acontece, porém, que o tempo passou e com ele, alguns vendedores desistiram do negócio, mas há os que continuam nos mesmos locais proibidos e vivem fugindo da perseguição da Polícia Camarária.

A interdição deste negócio resulta da revisão da postura camarária aprovada no elenco de David Simango, autorizando o negócio e nas condições actuais na capital do país.

“As condições em que são comercializadas as refeições nas viaturas deixam a desejar. Existem meios de transporte apropriados para a venda de refeições, como é o caso das furgonetas, que estão preparadas na comercialização deste tipo de alimentos em melhores condições, daí que estamos a fazer a revisão”, explicou Danúbio Lado, vereador de Desenvolvimento Económico Local.

Uma revisão que, para o Conselho Municipal de Maputo, é pelo bem da saúde dos clientes e do ambiente de negócio. “Temos viaturas expostas ao sol, sem condições mínimas para o acondicionamento de refeições e que, de certa forma, perigam a saúde pública”, indicou Danúbio Lado.

Mas não é só por isso: “Devemos definir, também, os locais (para a venda das refeições). Há zonas nobres na Cidade de Maputo que temos lá a venda descontrolada, uma concorrência desleal com os estabelecimentos que pagam impostos e estes vendedores não trazem nenhum valor adicional para a nossa economia. Muitos não pagam impostos. Temos de acautelar essa questão para que possam contribuir na limpeza da cidade”.

As viaturas chamadas furgonetas devem ter água corrente, sistema de conservação de refeições e outros aspectos exigidos numa cozinha.

Uma proposta que foi ouvida por quem faz o negócio, mas considera caro o que é recomendado pela edilidade. “Nós achamos que é uma perspectiva, mas nós não temos condições do jeito que explicam. São carros que nem existem, por aqui. Temos que mandar fazer. Será caro”, reclamou Aurora dos Santos, vendedeira de refeições, num dos carros na Cidade de Maputo.

Queixam-se da falta de dinheiro para a compra do meio proposto pelo Conselho Municipal de Maputo, mas as actuais viaturas parecem não reunir condições para a venda de comida.

“Existem, mas também não existem porque houve um tempo em que éramos corridos pela Polícia e nós estávamos organizados. Vínhamos com baldes, sabão, as pessoas lavavam as mãos, mas quando fomos perseguidos e levaram nossos pertences. Não chegamos a repor”, afirmou Aurora dos Santos.

Ainda assim, os vendedores de refeições pedem um meio-termo à edilidade. “Se disserem que temos que organizar mais os nossos carros, tirarmos os assentos, metermos alguns bancos, colocar prateleiras, até estarmos em condições para comprar as viaturas que eles dizem que temos que ter”, propôs, Idélcio Chongo, vendedor de refeições na Cidade de Maputo.

A Associação dos Vendedores de Alimentos Pré-cozidos já se posicionou, dizendo que não se opõe às novas normas do município. Porém, pede isenção na importação dos meios exigidos.

“Podemos adquirir as viaturas com apoio do Governo, através do não pagamento de algumas taxas para a aquisição de carros fora do país que tenham essas condições”, sugeriu Eusébio Demba, presidente da Associação dos Vendedores de Alimentos Pré-cozidos.

Enquanto não se aprova a nova postura camarária, Danúbio Lado afirma que o Conselho Municipal, através da respectiva Polícia, tem desencorajado a venda de refeições em viaturas na via pública.

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Na Livraria Escolar Editora (Cidade de Maputo) havia o habitual movimento. Por um lado, leitores ávidos em comprar livros, e, por outro, livreiros a explicarem onde se podiam encontrar determinados títulos. Enquanto se criavam as condições para entrevista, João Paulo Borges Coelho também apreciava livros como quem tentava adivinhar os que deverá ler antes do ano terminar. Alguns leitores reconheceram o autor de O olho de Hertzog, Água ou Cidade dos espelhos, e lá o observaram de soslaio, como se procurassem alguma confirmação plausível. Outros passaram pelo escritor sem dar por ele. Escusa-se dizer que, cumprindo as normas da livraria, o escritor usava uma máscara. Azul celeste. João Paulo Borges Coelho parecia ter todo o tempo do mundo no instante que apreciava os livros. Entretanto, repentinamente, foi afastado dessa actividade agradável. – Já estamos prontos. Disse o jornalista. O escritor anuiu e deu alguns passos até ao local onde se encontrava um assento confortável reservado para si. Ali falaria das suas motivações ao escrever Museu da revolução (seu novo romance), do que pensa do exercício da ficção, do que significa a literatura, de como pensa o seu país (o espaço urbano e suburbano), da dor que é ver o seu país e o seu continente se transformarem na lixeira do mundo. Afinal, Museu da revolução “pretende denunciar este caso de que o mundo está a limpar-se à custa de África”.

 

Começo esta conversa com um reparo. O seu novo livro, Museu da revolução, é uma história muito focada na “reinvenção” de vários aspectos estético-literários. Uma das personagens que tanto contribui para que o romance vá além do óbvio é Jei-Jei, o centro e a ligação entre o narrador e outras personagens. O que lhe ocorreu ao construir romance a partir dessa personagem?

Há uma ideia de que o romance não é o acto de contar uma história, de escrever uma história, mas é o acto de ir descobrindo como o próprio romance se constrói. Então eu olho para o romance como uma caixa de onde vamos tirando coisas que nos interessam, vendo como essas coisas encaixam umas nas outras. E essas coisas têm a ver com temas que queremos explorar, com aspectos da nossa vida e etc. Nesse sentido, o romance é uma descoberta para o leitor, mas antes foi uma descoberta para o autor, que tem uns dias mais difíceis e outros dias mais fáceis. Por exemplo, este romance, eu não diria que tem um tema, mas vários temas que se cruzam e que se encaixam. E todos os temas têm a ver com a nossa vida recente. Para chegar à sua pergunta, sobre a construção de Jei-Jei, que é, talvez, a personagem central, ele foi sendo construído quase no mesmo instante que eu o vejo pela primeira vez, quer dizer, que o narrador o vê pela primeira vez. O narrador não o conhece, vai o conhecendo. Ele vai-se materializando aos olhos dos leitores tal como vai-se materializando na história com o narrador.

 

Jei-Jei é um pretexto para levar os leitores a uma viagem pelos espaços e pelo tempo. É essa personagem que contribui para configuração de lugares como Moçambique, África do Sul ou Alemanha, devolvendo aí o passado dos madgermanes.

Tenho duas maneiras de responder a essa questão. A primeira é que há aqui um aspecto ético, que é do narrador não roubar a voz das personagens, mas estabelecer uma ligação. Tudo isto faz parte do jogo da verossimilhança, que é o segredo, no fundo, da literatura. Nós fingimos que estamos a dizer a verdade e, por sua vez, o leitor fiz que está a acreditar. Nesse sentido, há aqui uma exploração das próprias técnicas, se quiser, do sentido da literatura, que é jogar com o personagem como se fosse real ou uma fabricação. Muitas vezes, aquilo que o Jei-Jei e o próprio narrador não conhecem como verdade do livro, eles criam como a sua própria verdade nas suas conversas. No fundo, isto é uma exploração e é um jogar com o próprio jogo da literatura. E há este facto curioso de o Museu da Revolução estar no outro lado da rua do Jardim [dos Madgermanes]. Há aqui até uma correspondência topográfica, se quiser. Mas também havia a preocupação de não transformar o Jei-Jei num arquétipo, pois não há uma figura que representa um moçambicano. O moçambicano é diverso. Esta ideia, que é uma ideia preocupantemente errada do homem novo ou igual em toda parte e em qualquer circunstância, não existe. Existem homens e mulheres diversas. Nesse sentido, eu tinha um pouco a ideia de ir criando Jei-Jei também como um fruto de acasos, de opções e de condições que o destino lhe trouxe. Ele também foi aproveitado, enquanto personagem, para abordar temas que me interessavam abordar no romance, nomeadamente, esse trabalho migratório que tem mais do que uma dimensão. Não é só uma curiosa continuidade cultural em relação ao trabalho migratório na África do Sul, mas é também a vontade de trazer para o romance esta ideia de que o moçambicano é cosmopolita. O moçambicano não é uma vítima que está sentada no seu país à espera que os outros venham. O moçambicano conhece o mundo pelo menos desde os finais do séc. XIX, quando migrava massivamente para os países vizinhos e, depois, para a Europa, como se viu, e para o extremo Oriente. No tempo colonial, haviam contingentes das chamadas Tropas Landins em Macau e em Timor. Portanto, Jei-Jei serve para trazer estas questões mais recentes.

 

Portanto, Museu da revolução também é um pretexto para pensarmos como os moçambicanos se relacionam com o mundo e qual é o seu lugar no mundo?

Sim, e como é que se relacionam com eles próprios e com o seu passado, porque é um pouco bizarro que nós não tenhamos muita discussão sobre o nosso passado. Como se houvesse aqui uma parte que não valesse falar dela, porque é muito confusa. É exactamente por ser muito confusa que nós temos de falar mais dela. E os museus são espaços, digamos, habitados pelos resíduos do passado. Portanto, acho curioso que o Museu [da Revolução] tenha encerrado e tenha sido privatizado, uma vez que a história da libertação pertence a todos os moçambicanos.

 

A ficção “resgatou” a infra-estrutura…

Há uma questão geral e particular nossa. A questão geral é o tempo em que nós vivemos hoje. Na minha perspectiva, um tempo em que o presente se alargou. O presente se alargou e apagou, em grande medida, quer a ideia de futuro, quer a ideia de passado. A ideia de futuro no sentido de que morreram as utopias. Hoje ninguém pensa como comunidade, colectividade, como nação, como humanidade ou no que queremos atingir daqui a muito tempo. Hoje até há esta simbologia do fim do mundo com as alterações climáticas, que, simbolicamente, representa o fim das utopias. Ao mesmo tempo, o passado também desapareceu um pouco. Quer dizer, todos os dias é uma ideia nova. Mesmo para a própria leitura, já não há tempo e paciência para ler mais do que duas páginas. Nós não conseguimos ler mais do que um tweet ou uma imagem que nos chega num smartphone. E amanhã já é uma outra imagem. Portanto, nós vivemos um grande presente ao nível do mundo e isto afecta-nos também. Por outro lado, temos este problema específico de um passado recente que ficou mal resolvido. Não ficou uma ideia clara daquilo que nos aconteceu. Neste sentido, há esta tendência de nos afastarmos, nunca falamos sobre isso… O Museu também representa isso, aquilo que era de todos, que passou a ser de alguns, privado, e que, por outro lado, está fechado, mas não se diz que está fechado.

 

Quando estava a ler Museu da revolução, ainda fui ao Museu da Revolução para ver o Volkswagen que Eduardo Mondlane conduziu em Dar es Salaam. A recepcionista disse-me que o prédio estava em restauração e que ainda não havia previsão de abrir…

A situação é indefinida. É tão indefinida como a nossa incapacidade de olhos nos olhos discutirmos os nossos problemas. Neste sentido, o livro procura ajudar nesse debate.

 

Eu senti, nesta história, que a ficção ajuda a dar mais sentido à realidade e não o contrário.

Pois, isso é importante ser dito. Quer dizer, o livro não é uma interpretação da realidade, é uma elaboração a partir da realidade. A meu ver, é esse o papel da literatura. O livro não substitui estudos e não se limita a passar mensagens que não são confortáveis fazer passar de outra maneira, não é isso. O livro é uma elaboração literária sobre os problemas que nos afectam a todos. Ajuda a pensar, mas não é um pensamento ou uma interpretação.

 

Quando a história começa, julguei que Toichiro Yamada (japonês que usa uma Toyota Hiace/ mini-bus para transportar peixe) seria o protagonista da história. Depois, percebi que a personagem, na verdade, foi usada para introduzir a viatura que, mais tarde, chega a Maputo via Durban. O que quis transmitir com a importação dessa viatura usada do Japão?

Digamos, quando escrevo, eu sigo um pouco o instinto. Olhando para trás, há, talvez, duas razões. Uma delas, desenvolver o tal cosmopolitismo. Aquelas epígrafes, digamos assim, que abrem os capítulos, tentam mostrar isso. Nós não somos uma ilha. Fazemos parte de um todo mais vasto. Portanto, somos, à nossa maneira, cosmopolitas. Por outro, o romance pretende denunciar este caso de que o mundo está a limpar-se à custa de África. Nós somos a lixeira do mundo. Nós vimos fotos aterradoras sobre a lixeira de computadores na Nigéria, por exemplo, que são produtos altamente tóxicos. Nós somos depósitos de material hospitalar radioactivo da Europa. Ainda há alguns anos houve um escândalo relacionado com a Somália e havia até ramificações com Moçambique. Se não tivesse rebentado esse escândalo, preparava-se, com a conivência de autoridades locais, virem cá ter lixos hospitalares europeus. Neste sentido, nós estamos resolvendo um problema de transporte, transformando-nos num depósito dos carros velhos de todo o mundo. Ou seja, estamos a assistir uma transição tecnológica em todo o mundo, em termos energéticos, e, ao mesmo tempo, temos as cidades africanas, em geral, inundadas dos lixos desses carros. Num certo sentido, há aqui também uma vontade de aprofundar um debate sobre o facto do nosso futuro, em termos económicos, com o gás e com o carvão, ser o passado do mundo. Não advogo que ponhamos de parte isso, porque é demasiado importante para a economia, mas me pergunto se não somos obrigados a ter um pouco mais de imaginação. Nós não trouxemos respostas de qualquer tipo para a agricultura, por exemplo, que é o que preocupa a esmagadura maioria dos moçambicanos. Só temos coleccionado fracassos. Olhamos para o futuro com aquilo que o mundo vai considerando passado. Isso precisa ser discutido na comunidade, e não só entre as autoridades, porque a vida é de nós todos. Há também aqui um terceiro argumento, que é o da importância das histórias. Portanto, aquela [história de Toichiro Yamada] é mais uma história. Como aquela história de Inglaterra, sobre a origem dos CD’s, com raiz verdadeira. De facto, aconteceu, de alguma maneira, e há personagens reais à volta disso. Portanto, é um pouco pensar na importância das histórias para nos fazerem pensar no mundo real.

 

Não sentiu falta desta personagem japonesa, Toichiro Yamada, ao abandona-la no seu país, seguindo a história com a Toyota Hiace em Moçambique? Quer dizer, não sentiu que podia recupera-la em algum momento?

Podia, mas, nesse caso, já não seria a ideia de uma história que é contada, mas a ideia do Yamada, de personagens reais, que eram transportados para aqui. No fundo, existe esta ambiguidade se esta história do Japão é, de facto, a origem do Hiace, do chapa, ou se é fruto criado pelo diálogo entre o narrador e Jei-Jei.

 

Mais uma vez, temos na sua escrita personagens que não se interessam pelo espaço urbano, mas pelo interior de Moçambique. O que lá encontra?

Nós somos um país eminentemente rural, que está a sofrer uma rápida e tumultuosa transição para o mundo urbano. Em finais dos anos 50, 97% da população, salvo o erro por aí, era rural em Moçambique. Num espaço destes menos de 100 anos, metade da nossa população já é urbana. O espaço urbano é um espaço conflituoso, de pobreza, violento e que se vê que não é criado com serenidade. O espaço urbano é um espaço de sobrevivência, enquanto no rural tínhamos a dimensão de que era um espaço em que as comunidades dominavam. Agora não é tanto assim. Eu sou muito crítico em relação ao que se faz no espaço rural, porque se faz sem consultar os donos desses espaços. São tirados de um lado para o outro conforme as conveniências de um Estado central. Por acaso estudei esses processos em Tete e vi que no espaço de uma vida um camponês podia ser tirado da sua terra umas seis vezes, desde o aldeamento colonial, aldeias comunais até ao carvão. Quer dizer, todos os motivos são para tirar as pessoas dos lugares. Então, não pode haver estabilidade, não pode haver crescimento com esta dinâmica. Este regresso ao espaço rural é uma forma de protesto, digamos assim, nós temos de pensar nas soluções para o espaço rural. Essas soluções vão poder ajudar poderosamente, espero, a trazer serenidade ao crescimento urbano, deixando de ser pressionado pelas pessoas que fogem de um espaço inviável, que está a arder.

 

Como é que descreve o encontro com a história que se concretiza a partir da narrativa da portuguesa Leonor Basto ou da sul-africana Elise Fouché, usada para instaurar o drama do Apartheid?

Isso surge naturalmente. Eu meto a mão dentro da caixa e vou tirando as coisas. Mas, no fundo, talvez houvesse essa ideia de que as guerras que nós sofremos não surgem arrumadas no nosso tempo. Elas têm uma existência real e muito dura dentro da consciência das pessoas. Neste momento, nós podemos ter um traumatizado da guerra colonial. Quer dizer, como é que nós vivemos a guerra colonial e a resolvemos? Depois, como vivemos o conflito civil e o resolvemos? Esses conflitos habitam-nos. Eu quis integrar na história conflitos com raízes diferentes, para que, de alguma forma, ajudassem a fazer o balanço do tempo, sem fazer explicitamente esse balanço. Se é certo que há alguma reflexão sobre a relação com a guerra colonial, estranho o tipo de distanciamento que, por exemplo, temos em relação a África do Sul e vice-versa. É certo que há uma intensa participação de moçambicanos na África do Sul, mas é como se fosse uma relação negativa. Os moçambicanos inscrevem-se na África do Sul de uma forma subalterna e são regularmente expulsos, estes fenómenos de xenofobia. Houve, nos anos 50, 60 do século passado ligações em termos musicais, mas, hoje, eu não vejo ligações em termos culturais. Nem vejo ligações de outro tipo. Vejo-nos como clientes da indústria sul-africana, da cerveja, da Dstv e da comida que comemos no espaço urbano, claro. Esperava-se que, com o fim do Apartheid, houvesse outro tipo de ligação. Falou-se até da abolição das fronteiras, que eu acho que são mais fortes. É também para pensar um pouco nisso. Por que não há intercâmbio? Porquê nós não lemos literatura sul-africana? Porquê a África do Sul não lê a nossa literatura? Quer dizer, há muito a conversar sobre isto. Mesmo entre nós, para chegarmos ao entendimento sobre esses processos. De uma certa maneira, o livro é um balanço dos últimos 50 anos, mas é, sobretudo, um convite para que nós falemos mais como sociedade. Nós falamos pouco e o que falamos está contido nos limites da política imediata, a maior parte das vezes. Nós temos que ter conversas mais amplas, mais profundas, mais existenciais. Eu acho que nós, ultimamente, manifestamos uma preocupante falta de imaginação. Temos que imaginar mais, de nos centrar no mundo, olhar para nós próprios como pátria, sobretudo, em vez de nos prendermos só na vivência do dia-a-dia. Temos de ambicionar mais, acho eu.

 

Encaixa-se na tentativa de balanço do tempo a inserção do Volkswagen de Mondlane?

Há até umas duas fotografias desse carro. Pois, esses objectos ajudam a trazer a dignidade. Eu gostaria de usar a imagem para reforçar um pouco essa ideia.

 

Além de Mondlane, neste romance, temos outras figuras históricas. Por exemplo, Ricardo Rangel. A ideia foi impedir um eventual esquecimento?

Há até umas referências várias de uns músicos moçambicanos desse tempo. Porque no fundo é até uma vênia à rebeldia do jazz nesses tempos em que eu vivi, do pós-independência, que eram tempos fortemente morais, em que o jazz sobrevivia nas cavernas da cidade, o que mostra também uma grande criatividade. E, de facto, o Rangel era o papa do jazz, era o entusiasta.

 

O romance a contribuir para melhor dar a conhecer Rangel?

Ou pelo menos é uma lembrança carinhosa desta figura, do interessante que foi e da importância que teve também na nossa história. Nós temos de cultivar toda a espécie de herói, não apenas uma espécie de herói.

 

Em quanto tempo escreveu Museu da revolução?

É difícil de dizer, mas é um romance do confinamento, digamos. Havia umas ideias, umas notas, mas ganhou ímpeto na segunda metade de 2019 e, depois, em 2020. Talvez um pouco mais de um ano e menos de dois anos.

 

O quão prazeroso foi escrever o livro?

Eu gosto de escrever. Levanto-me de manhã e, com afinco, dedico-me ao trabalho. Há dias que não são produtivos, obviamente, e há outros que são mais. Mas todos os dias há sempre uma ideia do que estou a fazer dentro da cabeça.

 

Os Emirados Árabes Unidos decidiram mudar o seu fim-de-semana de sexta-feira e sábado para sábado e domingo e instituir uma semana de trabalho de quatro dias e meio.

Além do sábado e do domingo, os habitantes dos Emirados terão mais meio-dia de descanso na tarde da sexta-feira, dia da grande oração semanal nos países muçulmanos.

“Os Emirados Árabes Unidos são a primeira Nação do mundo a introduzir uma semana de trabalho nacional mais curta do que a semana global de cinco dias”, segundo a WAM, acrescentando que, na maioria dos países árabes, o fim-de-semana decorre entre sexta-feira e sábado.

De acordo com o Notícias ao Minuto, a federação que reúne os sete emirados vai tornar-se o único país do Golfo com um fim-de-semana de sábado e domingo, decisão que lhe permite alinhar com a maioria dos países fora do mundo árabe.

Os funcionários também poderão optar por trabalhar a partir de casa na sexta-feira, segundo a agência de notícia dos Emirados.

“Este fim-de-semana prolongado faz parte dos esforços do Governo dos Emirados Árabes Unidos para melhorar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional (…) e também para aumentar o desempenho da competitividade económica do país”, refere a WAM.

A semana nacional de trabalho passa a ser obrigatória para o sector público a partir de Janeiro.

Após conquistar o torneio regional COSAFA, o seleccionador nacional de futebol de praia, Abineiro Ussaca, diz estar a viver um momento especial e único em sua vida. Dito de outra maneira, sente-se, até aqui, um homem realizado.

Um ano de sonho para Abineiro Ussaca. É, por isso, um homem feliz. Não é para menos. Num ano desportivamente atípico, ele conseguiu fazer ecoar o hino nacional no concerto das nações e colocar ainda a bandeira nacional a reluzir no meio de tantas outras. Poderá, por essas alturas, Abineiro Ussaca estar a dormir o sono dos justos. E, para tal, nem precisa de duas rodelas de pepino nos olhos.

A conquista da COSAFA viria a ser a cereja no topo do bolo. O foco, consubstanciado com o trabalho árduo, foi elemento-chave para o sucesso. Mas, há mais, Ussaca selou também a presença inédita no Campeonato Africano de Futebol de Praia e no Mundial, por sinal, as duas maiores montras da modalidade. Por lá, espalhou a fragrância do talento moçambicano e também deixou uma mensagem ao mundo: vale a pena sonhar.

“É o primeiro título que eu conquisto além-fronteiras. Significa muita coisa em minha vida e, por isso mesmo, algo muito especial para mim”, diz Abineiro Ussaca. Na hora de colher os louros, o jovem treinador, que por uma tonelada de motivos é o abono de família do futebol de praia moçambicano, explica que a conquista só foi possível mercê ao envolvimento de todos, como é o caso dos jogadores, equipa técnica e a direcção da Federação Moçambicana de Futebol.

“É importante que cada qual faça a sua parte. E, quando é assim, o nosso trabalho fica facilitado”, explica. Abineiro Ussaca até poderia tocar o céu, até porque motivos tem de sobra. Mas, na hora de falar, a humildade rompe-lhe as cordas vocais.

“Não é um ganho só para mim, mas também para o para o país, pois as pessoas já têm uma nova imagem de Moçambique”, observa, ajuntando que, de uma maneira geral, os feitos do combinado nacional contribuem para o desenvolvimento do desporto no país.

 

DESFILAR ENTRE OS GRANDES

Em Maio passado, o país exultou com a qualificação inédita da selecção nacional de futebol de praia para o CAN, cuja fase final teve lugar em Senegal. Era, de facto, um momento de viragem da modalidade. Em Senegal, o combinado nacional terminou a prova na segunda posição, selando, desse modo, a presença no Mundial pela primeira vez. A bandeira do país saía do anonimato no contexto do futebol de praia em África.

“Foi um momento extraordinário para nós. Foi uma honra também estarmos entre as melhores selecções de África, como é o caso do Senegal, que é a melhor selecção de África na actualidade. Só quem lá esteve pode sentir o que nós sentimos”, diz Ussaca.

Mais do que embandeirar em arco, Abineiro Ussaca deixa um recado: “temos de aproveitar o momento de resultados positivos para que possam servir de incentivo e motivação para a divulgação da modalidade no país”. O repto não pára por aí. Para Ussaca, é necessário que o futebol de praia seja praticado em todo o território nacional, visto que, actualmente, apenas a cidade de Maputo movimenta a modalidade.

“Como desportista e como seleccionador nacional, tenho estado a interagir com algumas associações provinciais, com o departamento técnico da Federação Moçambicana de Futebol, bem como com várias pessoas ligadas ao desporto nacional”, sublinha Ussaca. Para Ussaca, é preciso que se faça um investimento sério no futebol de praia, de modo a permitir que a modalidade dê passos significativos. Justifica que Moçambique tem uma costa grande, daí que há condições para a prática da modalidade.

Moçambique irá acolher, no próximo ano, o CAN de futebol de praia. A Cidade de Vilankulo já começa a estar engalanada para acolher a prova e as delegações que se farão presentes. Sobre esta competição, Abineiro Ussaca garante que o combinado nacional estará na sua máxima força. Questionámo-lo sobre os objectivos. E a resposta não foi aquele cliché: “chegar a final e quiçá vencer a prova. Queremos, mais uma vez, ir ao mundial”, garante Ussaca.

Abineiro Ussaca começou a sua carreira no Vulcano FC como treinador de futebol 11, tendo entrado no futebol de praia em 2005. É seleccionador nacional de futebol de praia desde o ano passado. Como seleccionador, orientou também a selecção sénior feminina de futebol feminino.

 

A África do Sul será novamente um ponto de encontro para as equipas que esperam conseguir o seu ingresso para a Basketball Africa League (BAL). Após o sucesso de Joanesburgo como anfitrião das eliminatórias do Grupo F, Divisão Leste, em Outubro, a cidade de ouro sediará uma etapa da Elite 16, que acontecerá no Pavilhão de Wembley, a partir desta terça-feira, 7, até o dia 11 de Dezembro.

Os finalistas do torneio de Joanesburgo e a equipa que vence o jogo do terceiro lugar avançam para a segunda edição do BAL, enquanto outras três equipas se classificam para a divisão Este, Elite 16, agendada para Yaounde, Camarões (11-16 de Dezembro).

Os campeões de Angola, Egipto, Nigéria, Ruanda, Senegal e Tunísia classificaram-se automaticamente para a fase Final da BAL.

O Ferroviário da Beira vai liderar o Grupo H2. O Ferroviário da Beira, que se classificou com um recorde de 2-1 no Grupo F, Divisão Leste, é o favorito para sair do seu grupo na primeira fase e se qualificar. Os moçambicanos vão contar com o reforço do armador americano William Perry. O atacante canadense Jermel Kennedy trará, também, seu impressionante trabalho para a equipa.

Os Ulinzi Warriors, que se classificaram em segundo lugar na Divisão Leste do Grupo D, vão depender dos jogadores do Kenya Morans, como Situma Khaemba, Victor Bosire, Erick Mutoro e Valentine Nyakinda, para ajudar a mudar o grupo.

O Cobra Sports, que ganhou a entrada por meio de repescagem e será um outside do torneio. Dieudonne Ndizeye e Tom Wamukota, do Patriots Basketball Club, trarão experiência para suas fileiras.

Assim, os “locomotivas” do Chiveve vão lutar por uma das três vagas do Grupo H2, da Divisão Leste e iniciam a saga esta terça-feira diante do Cobra Sport do Sudão do Sul, quando forem 15h30, mesma hora de quinta-feira, dia que termina a primeira fase diante do Unlize Warriors do Quénia.

Luiz Hernandez, técnico do Ferroviário da Beira, diz que a sua equipa está pronta para esta etapa de apuramento, mesma opinião defendida pelo capitão da equipa, Armando Baptista, e o extremo Ayad Munguambe, que dizem que a equipa está apta para enfrentar os jogos que terão pela frente, sendo que o objectivo é a qualificação a elite dos 16 que tomarão parte na liga profissional Liga Africana de Basquetebol.

No global, a província da Zambézia produziu 17 mil toneladas da castanha de caju e só vai comercializar 170 toneladas, porque os comerciantes estrangeiros e outros se anteciparam em contactar os produtores, comprando a castanha de caju a preços não competitivos, ao invés de aguardar pelo preço de referência estabelecido pelo Governo na ordem de 43 meticais o quilo.

Zambézia acolheu, esta segunda-feira, o lançamento da primeira edição do leilão presencial da castanha de caju. Trata-se da primeira iniciativa à escala nacional organizada pela Bolsa de Mercadorias de Moçambique (BMM). A iniciativa vai abranger cinco províncias que mais produzem a castanha de caju, designadamente Zambézia, Nampula, Cabo Delgado, Inhambane e Gaza.

A localidade de Malema, distrito de Pebane, acolheu as cerimónias de lançamento do leilão. A presidente da BMM, Victória Daniel, disse que a iniciativa, por sinal a primeira do género, passará a ser anual, prevendo abarcar outros produtos, tais como o feijão, gergelim, milho, entre outras culturas de rendimento com elevada produção e procura.

Victória Daniel afirmou também que esta iniciativa tem por objectivo fortalecer os esforços dos produtores que tanto fazem para produzir e que, no fim do dia, pouco arrecadam para as suas famílias, porque o comerciante que se dirige a eles apresenta propostas não competitivas.

“Isso tem um impacto negativo na renda familiar do produtor. Ele despende força, tempo e valores para produzir com objectivos de aumentar a sua renda, mas, no fim de dia, vê todas as suas contas frustradas por conta do comerciante que só olha para os seus benefícios”, disse a presidente da BMM

Fundamentalmente, a província da Zambézia produziu, na presente campanha, 17 mil toneladas da castanha de caju, mas apenas vai colocar em leilão 170 toneladas. Tudo porque alguns comerciantes se anteciparam e foram ao produtor comprar castanha ao preço não recomendado pelo Governo.

Sucede que o Governo decidiu aplicar o preço de referência para a presente campanha de comercialização, na ordem de 43 meticais o quilo. Das 170 toneladas disponíveis que vão a leilão, os produtores esperam arrecadar pouco mais de sete milhões de meticais. Do valor, 2%, o equivalente a pouco mais de MZN 400 mil, vai para os cofres do Estado.

O governador da província, Pio Matos, que fez o lançamento do leilão, começou por apresentar aos intervenientes da cadeia de comercialização as qualidades da castanha de caju disponíveis.

Depois de anunciar, os comerciantes não concordaram com o preço de referência da castanha aplicada pelo Governo. Evocaram questões de transporte e impostos como factores que não vão ajudar na obtenção de lucros.

Em resposta, o governante deixou claro que “o preço de referência aplicado pelo Governo não se negoceia, pois tem em vista salvaguardar a melhoria das condições de vida dos produtores”, disse o governante, afirmando que o preço de referência é irreversível.

O “mega leilão” da castanha de caju vai de Novembro de 2021 a Fevereiro de 2022, contemplando cinco províncias, que são Cabo Delgado, Zambézia, Nampula, Inhambane e Gaza.

A Embaixada dos Estados Unidos da América (EUA) em Moçambique entregou, esta segunda-feira, ao Governo moçambicano 2.016.000 doses da vacina Johnson & Johnson, através do COVAX.

Esta é a quarta e maior entrega bilateral de vacinas contra a COVID-19 dos EUA para Moçambique, elevando o número total de vacinas doadas para aproximadamente 3,5 milhões, e mantendo os Estados Unidos como o maior doador bilateral de vacinas de Moçambique.

“Os Estados Unidos continuam empenhados em partilhar as vacinas de forma equitativa, em todo o mundo. Ninguém está protegido da COVID-19 até que todos estejam vacinados.  À medida que mais vacinas se tornam disponíveis para todas as nações em todo o mundo, temos um interesse comum em conseguir que todos os que são elegíveis sejam vacinados”, disse o embaixador dos EUA em Moçambique, Dennis Hearne.

Falando a jornalistas, minutos depois do acto simbólico da entrega dos imunizantes, Dennis Hearne avançou que esta iniciativa, que já alocou cerca 800 mil vacinas ao país, há menos de 20 dias, visa ajudar Moçambique na luta contra esta pandemia que é mundial.

“É com enorme orgulho que o Governo dos Estados Unidos entrega dois milhões e dezasseis mil doses de tomada única, da Johnson & Johnson ao Governo e ao povo de Moçambique. Com esta doação, os EUA ajudam a vacinar quase três milhões de pessoas”, disse Hearne.

O Governo dos EUA tem prestado apoio atempado e contínuo em resposta à pandemia da COVID-19 em Moçambique, incluindo assistência.  Esta assistência inclui a recente doação de 60 garrafas de oxigénio e de uma fábrica de oxigénio PSA, 50 ventiladores, equipamento de protecção pessoal para profissionais de saúde, equipamento de laboratório e de oxigénio, formação e financiamento para o aumento do pessoal médico, entre outras iniciativas.

O ministro de tutela agradeceu a iniciativa e assegurou que, com esta doação, Moçambique estará em condições de inocular as pessoas com idade igual ou superior a 18 anos.

“Estas doações acontecem numa boa altura. Porquanto, o país precisa de se blindar contra as novas variantes e a iminente eclosão da quarta vaga da COVID-19. Os dados dos últimos 72 dias têm-nos deixado preocupados e isso urge que todos nos unamos para poder reverter o cenário”, disse Armindo Tiago.

O processo de vacinação para este grupo já havia sido iniciado, mas, segundo o governante, com o stock cada vez mais composto que o país possui, estará mais preparado para fazer face à pandemia e quiçá enfrentar com mais confiança e menos impacto a quarta vaga e a variante Ómicron.

O fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), um dos promotores desta iniciativa, garante continuar a firmar parcerias para apoiar o país na aquisição de vacinas e outros produtos necessários para o aumento da cobertura da vacinação.

Em estreita colaboração com o Governo de Moçambique, o Governo dos EUA disponibiliza mais de USD 500 milhões em assistência anual para melhorar a qualidade da educação e dos cuidados de saúde, promover a prosperidade económica e apoiar o desenvolvimento global da Nação.

A Ordem dos Advogados, Assistente no julgamento do “caso dívidas ocultas”, submeteu um requerimento a solicitar a interrupção das audições de 20 de Dezembro a 6 de Janeiro. O Ministério Público e os advogados de defesa subscrevem o pedido e o Juiz concorda que é necessário fazer uma pausa, mas só vai comunicar a sua decisão no dia 14 de Dezembro.

Com a aproximação das festas do Natal e fim-de-ano e já decorridos quatro meses do julgamento das “dívidas ocultas” e produzidas muitas novas matérias, a Ordem dos Advogados de Moçambique pediu ao tribunal que concedesse uma interrupção a partir do dia 20 de Dezembro para descanso. Ao pedido apresentado ao tribunal, o Ministério Público concordou e aproveitou para pedir mais alguns dias de interrupção. Ao subscrever o pedido, Ana Sheila Marrengula manifestou o desejo de as audições retomarem a 10 de Janeiro e não a 6, conforme a vontade manifestada pela Ordem.

Os advogados de defesa também alinharam e o juiz da causa, Efigénio Baptista, assumiu que já há sinais de cansaço e ele próprio precisa de tempo para exarar alguns despachos, mas deixou a decisão para a próxima semana. “No dia 14 [de Dezembro], o tribunal vai exarar um despacho sobre o requerimento da Ordem, subscrito, em parte, pelo Ministério Público”.

O advogado Abdul Gani, por seu lado, requereu ao tribunal para retirar dos autos os documentos que ele submeteu como provas, referentes à constituição da Txopela, quando era mandatário de António Carlos do Rosário. É que o declarante Bilal Seedat submeteu ao tribunal um documento da constituição da Txopela que difere do que ele submetera. O Ministério Público e a Ordem dos Advogados discordaram das pretensões do advogado. O juiz indeferiu o requerimento e explicou o porquê.

“Basta retirar aqueles documentos, o processo não se vai compreender. Ao tirar aqueles documentos, que sustentaram as alegações, também têm de se tirar as alegações, porque não se vai compreender as alegações sem o documento. Esta é uma sequência de actos. Quando se tira um acto no meio, o processo já está incompreensível.”

 

A AUDIÇÃO A BILAL SEEDAT

O primeiro declarante ouvido, esta segunda-feira, na Cadeia de Máxima Segurança da Machava, foi Bilal Seedat. Durante a audição, o Assistente questionou se, quando assumiu a administração da Txopela, teve acesso ou não aos instrumentos de gestão da mesma. Seedat contou que, na Txopela, reportava única e exclusivamente ao réu António Carlos do Rosário e recebia instruções, quer verbais, quer escritas dele. “Nunca participei em nenhuma reunião de planeamento ou de negócios, nem de aquisição sem ser já na fase dos respectivos pagamentos”.

Outra pergunta colocada a Bilal Seedat teve a ver com o pagamento de mais de 43 milhões de meticais feitos pela Direcção Nacional do Tesouro a Txopela. O declarante disse não saber as razões e ainda acrescentou que não assinou nenhum contrato. Segundo disse, não negociou, muito menos teve contacto com alguém do Ministério das Finanças ou do Tesouro.

Uma das empresas do grupo Privinvest, que é apontada como accionista da Txopela, chegou a processar o declarante e outros gestores da Txopela no Líbano, mas, até hoje, diz não saber a razão. Bilal Seedat sublinhou em tribunal que o seu único ponto de contacto, na empresa, era António Carlos do Rosário.

Por: Nelson Saúte

 

Ontem custou-me este exercício quotidiano e anotei apenas estas seis palavras: “Ano tremendo este. Vivemos tempos aziagos”. Fui deitar-me exausto de tanta morte que nos ronda. A manhã chegou depressa e eu quis fugir da cidade para o lugar onde moram as aves. Fatigado ainda procurei fazer uma sesta em dia de canícula. A notícia do teu passamento chegar-me-ia com os pássaros que debicam os vidros da janela. Incrédulo busquei a fidúcia nos amigos.

Agora, não me posso ater apenas às seis palavras de ontem. Preciso de dizer algo que não seja o lugar comum da notícia. Aqui há uns anos, muitos anos quero eu dizer, divisando flamingos, ao largo da estrada que margina este dolente Índico, enquanto me dirigia para este mesmo refúgio, surgiu-me desse instante, nesse flagrante, uma espécie de epifania: a tua imagem como poeta. Foi ali que realizei que eras poeta, nessa revelação, nessa aparição dos flamingos: “o flamingo adormece em si o horizonte/ como flor espetada no pântano”.

Aplaudi em silêncio a tua erupção poética. Volto agora aos teus versos e leio: “enterro o coração no sussurrar das palmas/ me embrenho…/na vigilância enlutada dos corvos/ outra ilha”. À beira dos 50, “descidos os degraus da fantasia/ de lá dos píncaros de dirigir”, publicavas Dentro de Mim Outra Ilha (1995), um belo livro de estreia. Não há muitos livros assim.

Não sei se alguma vez te disse isto. Provavelmente o pudor impediu-me de to dizer. Mas ali, naquele livro primeiro, a admiração que tinha pela personagem transfigurou-se na admiração pelo poeta. Quis a fortuna que, anos mais tarde, pudéssemos ter um afirmado contacto e essas ocasiões confirmaram a intuição: o homem e o poeta diziam-se com a mesma verdade, com a mesma inteligência e com a mesma elegância.

A candura do poeta estava no homem compassivo. Mesmo quando eras assertivo as tuas palavras eram de um homem cordato. O conflito, a dissensão, a briga, a discórdia ou a divergência marcam com impetuosidade os nossos dias e o devir moçambicano. Gentil, compreensivo e humano era como eu te via naquela década na qual que nos sentámos, frente a frente, a discutir o país e o nosso destino.

Um dia, nesses encontros, fui áspero perante uma apresentação que me parecia medíocre. Com o teu sangue bom impediste que o debate resvalasse para o azedume. Sou impaciente perante a mediania, reajo com acesso, quase sempre impulsivo. Tu, com a fleuma e a tua elegância foste apaziguador. Aprendi com aquele teu gesto indulgente.

A tertúlia literária está na origem da nossa amizade e ao longo destes anos nunca intuí em ti alguma sobranceria pelo facto de teres sido dirigente. Antes pelo contrário. Sempre discreto como naquela lendária fotografia onde estás na última fila. Essa é uma das qualidades mais admiráveis.

Perante o esquife de um funcionário que te recebera como jovem ministro subiste voluntariamente ao púlpito e fizeste a mais bela homenagem que se pode tributar a um igual. Com aquele homem tinhas aprendido e disseste-o ali, naquela igreja repleta, sem rebuços. Sem tergiversação. Comovido ouvi o teu testemunho. Comovido e em silêncio. Outra vez, vi em crescendo a minha admiração por ti. Um antigo ministro sabia ser igual e sobretudo era capaz de reconhecer que aprendera com um subalterno.

Os nossos intendentes, por alguma razão, acreditam no prodígio que faz deles pessoas infalíveis no dia em que são eleitos. Em décadas de convívio contigo, de tertúlia literária, de discussão fraterna, nunca te vi imodesto. Antes pelo contrário. Vi o argumento, o arcaboiço, o conhecimento e a sabedoria. A inteligência fina, as ideias escoradas e a bonomia e o sorriso acolhedor. O aviso. O precato. A humildade.

Os antigos falavam em homens probos. Os antigos falavam em homens bons. Falavam também em pessoas éticas. Falavam em pessoas honestas. Quando te via lembrava-me desses homens com quem aprendi o vocabulário da urbanidade, o léxico dos bons costumes, da civilidade e da amizade. Pertences a esse raríssimo escol. Estás entre os melhores. Os nossos melhores. Dos poucos melhores que nos vão faltando.

Há precisamente 20 anos pediste-me que eu redigisse uma nota para a contra-capa do teu segundo livro: Nónumar (2001). Provavelmente o texto é canhestro, mas quis registar nele o testemunho indisputável da minha amizade e, sobretudo, quis que fosse a expressão inequívoca da minha admiração indefectível.

Não há muitos meses, enviei-te o meu último livro, Planisfério Moçambicano. Estranhei o teu silêncio. Afinal, não estavas bem. Discretamente fui sabendo de ti, mas estava longe de imaginar este duro epílogo. Ninguém poderia ou quereria conjecturá-lo. Agora vais tu para essa noite intérmina e para o destino do silêncio peremptório. Vivemos estes tempos que nos impõem a infelicidade, o desconsolo e a tristeza. Vivemos tempos de mágoa e de sofrimento. Vivemos um tempo de infortúnios.

Quando esta tarde os pássaros que debicam a minha janela impuseram o luto, procurei consolo nos teus versos. Não tenho aqui os teus livros de poesia, residem numa biblioteca estrangeira. A despeito, resgato de uma antologia (Nunca Mais é Sábado) aqueles poemas que designei para te representar e leio estas iridescências: “É este o Sul que eu abro nos meus livros/ nas ilhas ou nas terras adornadas/ que teimam em subir com o mar desperto/ e garrir-se de cor e gargalhadas”.

 

Maputo, 5 de Dezembro de 2021

 

 

 

 

 

 

Apesar da pandemia da COVID-19, a venda de armamento aumentou 1.3 por cento em 2020. As 100 maiores empresas internacionais de armamento tiveram um lucro de um total de 469 biliões de euros no ano passado.

Em 2020, o comércio de vários bens foi duramente afectado pela pandemia da COVID-19, mas nem com isso o negócio de armamento abrandou.

Segundo o Notícias ao Minuto, a venda de armas aumentou em 1.3 por cento no ano passado, um lucro de um total de 531 mil milhões de dólares para as 100 maiores empresas internacionais de venda de armas.

Os dados constam do relatório sobre comércio de armas e serviços militares do Instituto Internacional de Pesquisa sobre a Paz de Estocolmo, sublinhando que as despesas militares subiram em grande parte do mundo e, em alguns casos, os Governos aceleraram os pagamentos à indústria do armamento.

Os Estados Unidos mantêm a hegemonia mundial, com 41 empresas entre as 100 maiores cotadas neste mercado, representando 54 por cento do total de facturação em 2020, 285 mil milhões de dólares.

Na lista das 100 empresas, 26 são do continente europeu, que somaram 109 mil milhões de dólares de facturação em 2020. Destaque também para cinco empresas chinesas de comércio de armas, que facturaram 66 mil milhões de dólares.

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