Manifestações denunciam afastamento do poder político em relação aos cidadãos
A contenção fictícia e administrativa da economia durante o período eleitoral só podia agora levar a um aumento generalizado dos preços dos produtos. Houve um certo menosprezo por parte do governo sobre a capacidade de manifestação da população e o que se evidencia é que há um sentimento por parte da população que estamos agora a testemunhar.
João Mosca Economista
Por muitas razões que eventualmente possam existir e reconhecidas as dificuldades que o país atravessa, de qualquer das formas qualquer situação de violência e de transgressão à ordem pública não são aceitáveis. Repudio este tipo de manifestações. As pessoas devem encarar a situação com a maior tranquilidade porque violência gera violência e as manifestações de força podem impulsionar os ímpetos de agressividade.
A contenção fictícia e administrativa da economia durante o período eleitoral só podia agora levar a um aumento generalizado dos preços dos produtos. Houve um certo menosprezo por parte do governo sobre a capacidade de manifestação da população e o que se evidencia é que há um sentimento por parte da população que estamos agora a testemunhar.
Com ou sem organização dos acontecimentos o que fica logo manifesto é que existe um sentimento alargado de insatisfação por parte da população devido ao aumento do custo de vida e com isto o agravamento da pobreza. Nenhuma análise séria poderia evitar chegar à conclusão de uma possibilidade deste tipo de acontecimentos. Quem pensava que esta era uma situação impossível só não conhecendo a realidade em que as pessoas vivem. Houve da parte de quem é de direito uma “menosprezação” dos antecedentes deste fenómeno.
Esta governação e outras dos últimos anos são governações completamente vazias de conteúdo, vazias em termos de políticas económicas e vazias de objectivos e ideais para a Nação. São governações viradas para as pessoas onde estas se servem e deixam de servir; são governações que atendem a interesses de grupos e não o país. Nós não vemos um discurso do país, o que se assiste é a existência de uma incompetência governativa.
O problema da corrupção é um dos problemas mais sérios deste país. E o principal ponto de corrupção é a forte promiscuidade que existe entre governantes, governação e negócios que capturam a capacidade do Estado de dirigir, regularizar e fiscalizar a economia e faz do Estado um instrumento para obtenção de interesses de particulares e de grupo que esquece depois aquilo que é a população. E o 1 de Setembro pode, neste caso, ser tido como o afastamento do poder político e da governação em relação aos cidadãos porque as agendas pessoais e as agendas do grupo estão acima daquilo que é a agenda nacional, a agenda de um projecto para o país. E este problema é um problema central que sem o resolvermos devidamente não haverá solução para este país.
O cinto já se apertou e chegou a um momento de exaustão
João Colaço Sociólogo
Os nossos problemas jamais serão resolvidos pela violência e a verdade disto é que as pessoas mais atingidas são inocentes. O direito à manifestação e a greve são princípios consagrados na Constituição mas em momento algum a Constituição nos atribui o direito à violência. Portanto, gostaria de apelar a todas pessoas envolvidas neste processo para que mantenham a calma uma vez que ainda há muito tempo para se dialogar com as autoridades para que se possa resolver da melhor maneira os problemas da população.
Esta situação espelha uma ruptura do contracto social entre o Estado e a sociedade. Estamos diante de um fenómeno que agora se repete pela segunda vez depois de ter sido registado algo de género há dois anos e parece que as motivações são similares. O cinto já se apertou e chegou a um momento de exaustão, uma vez que os preços dos produtos básicos estão a aumentar. Esta frustração já está a atingir também extractos sociais mais estáveis, ou seja, pessoas da classe média. Temos assistido manifestações por parte de jovens de universidades privadas e agora são os populares que se amotinam e não sei exactamente se são contra o governo ou o Estado.
Há uma lógica de organização dos sectores populares que muitas vezes não é compreendida por quem não faz parte deste mesmo círculo. O governo não terá tomado muito a peito o cinco de Fevereiro, houve um menosprezo às manifestações que naquele dia se revelaram espontâneas. O dia 1 de Setembro confirmou que há na verdade uma estrutura realmente arquitectada.
Temos que reflectir que a acção governativa virada à cidade é nova e não tem ainda um ano sequer, o que significa que os problemas da governação anterior prevalecem na governação de hoje. Penso que de 5 de Fevereiro a 1 de Setembro de 2010 pouco se fez na cidade para alterar este quadro social e económico enfrentado pela grande maioria da população moçambicana. Quero acreditar que paralelamente ao possível crescimento de alguns sectores da economia moçambicana assiste-se também a uma acumulação elevada que ao invés de socializar a riqueza e oportunidades para todos aumenta as nossas desigualdades sobretudo nas cidades, e quando nós falamos do centro urbano isto é gravíssimo. Significa na verdade que estamos muito longe de podermos afirmar de viva voz que há desenvolvimento.
Será importante que haja mais diálogo, inclusão, participação, investimento, emprego, moderação e mais democracia que possam trazer estabilidade e o desenvolvimento e tudo o que os moçambicanos anseiam.
“Este é um momento oportuno para diálogo”
Dom Dinis Sengulane
É uma situação extremamente preocupante e nós queríamos apelar uma vez mais ao bom estilo do povo moçambicano para que continuem a manifestar o seu estilo normal da valorizaçãzo do diálogo e que recorram a meios pacíficos para manifestar qualquer sentimento que vai na alma. É muito triste assistir à destruição de infra-estruturas que de singulares. Isto não é típico dos moçambicanos. Apelamos a uma atitude de civismo porque o país é nosso, e destruindo o que é nosso estamos a nos destruir a nós mesmos. Paz é o nosso grande apelo neste momento. O que pedimos a Deus é que Dê aos moçambicanos um coração mole e não um coração endurecido. Não podemos aderir a actos de violência que só nos fazem ficarmos mais pobres e desgraçados.
Os moçambicanos já deram provas da sua capacidade de resolver situações adversas usando da sua capacidade de diálogo, meios pacíficos de manifestar o que lhes vai na alma. Este é um momento oportuno de manifestar mais uma vez essa capacidade. O nosso apelo é de que manifestemos que de facto temos esta capacidade.
O tipo de estragos registados fazem-nos retroceder cada vez mais na nossa pobreza, de tal maneira que a capacidade de avançarmos está a ser posta em causa. Sejamos aqueles moçambicanos próprios e dignos do nome, que já manifestaram que mesmo coisas dolorosas e chocantes sabem manifestar-se pacificamente.
“Era preferível procurarmos resolver o problema através do diálogo”
Sheik Aminuddin
Acompanhei a situação com muita tristeza e mágoa. Solidarizo-me com a população pela situação difícil porque estamos a passar e que certamente afecta a todos nós. Mas queria também apelar à calma porque os momentos de que estamos a passar é uma crise internacional que afecta todo o mundo. Esta atitude não é prudente uma vez que a violência só traz destruição e muitas perdas e não constitui a melhor forma de resolução de problemas. Era preferível procurarmos resolver o problema com as autoridades através do diálogo porque já estávamos a sofrer as consequências da pobreza e para acabarmos com a mesma precisamos de um projecto a longo prazo, o que não se resolve de um dia para o outro. Trata-se da repercussão de um problema vivido internacionalmente.
O governo podia até contratar vietnamitas para virem plantar o arroz dadas as condições naturais do país e assim aprenderíamos a suprir as nossas dificuldades com a experiência de outros países que já passaram por elas. Queria também apelar a população à calma para evitar muito luto e destruição.
O país precisava de viver a sua própria pobreza
Lourenço de Rosario, reitor da Apolitécnica
É de lamentar que se tenha chegado a este ponto de crise. No seio das famílias, a distribuição de renda é algo que nós temos vindo a viver nos últimos tempos não só pela subida de preços, mas também pela depreciação da nossa moeda, são dois factores que se conjugam e qualquer cidadão tinha admitido a sensação de que seria algum ponto de ruptura.
Lamento imenso que não tenha havido a prevenção necessária, do ponto de vista de trabalho junto das comunidades, de modo a que as pessoas tivessem a serenidade suficiente para poderem enfrentar a crise. Não basta utilizar apenas meios de comunicação social, etc. É preciso ir até às pessoas, porque estas estão preparadas para viver com pouco. O problema é que preciso perceber por que é que estamos a viver com pouco. De facto está a se viver com muitas dificuldades e isso gera conflitos em qualquer parte do mundo. Se calhar todos nós, agentes de educação, governantes, sociedade civil, privilegiamos se calhar um olhar crítico do ponto de vista das falhas que têm acontecido no seio da nação porque também prefere privilegiar esse olhar crítico. Agora, quando acontece isto, não prevenimos, então temos que remediar. Portanto, não poderíamos ficar parados e assistir aquilo que nós chamaríamos de leite derramado. Nós não podemos dizer que quem está na rua são os agitadores, bandidos, e etc., porque seria uma falha de análise e eu como académico, não me envolvo neste tipo de facilitismo. Também estão nas ruas, os cidadãos que clamam por uma justiça social. Agora, não sei se eu apoio o irmos à rua. Acho que não. Eu não apoio, porque a rua traz-nos aquilo que se chama caos, e o caos não ajuda a serenar os ânimos. É preciso encontrar os interlocutores para isto. Ninguém pode ir para a rua conversar com as pessoas que estão agitadas. É muito difícil, não há diálogo possível. Agora, é preciso que com serenidade, se faça um trabalho sobre como nós devemos encarar esta crise económica e social, porque não vale a pena estarmos a disfarçar.
Estamos a viver grandes dificuldades de distribuição de renda porque o país está a viver grandes dificuldades económicas. Nós ouvimos os governantes a dizerem que a economia do país não está lá muito bem como nós esperávamos, naturalmente que a crise internacional também nos atingiu, o que contraria um pouco as mensagens que recebemos há um tempo atrás, que se dizia euforicamente que a crise não nos iria atingir. Se calhar isso nos distraiu um pouco e não nos preparamos devidamente para podermos prevenir estas situações, e neste momento está tudo a cair assim. É bom que hajam analistas que continuam a colocar todos estes cenários, mas é também bom que, as igrejas, as escolas, etc, consigam chegar às comunidades de modo a passar uma mensagem de serenidade, para podermos enfrentar esta crise. Eu sempre disse que, se calhar, o país precisava de empobrecer, viver a sua própria realidade.
Nós verificamos que estamos a viver uma situação ilusória. Esta realidade virtual que nós estamos a viver mostra que tudo tem que mudar, e se calhar vamos enfrentar maiores sacrifícios. Tem que haver alguém com coragem, que pode explicar que o futuro é este mesmo, e vamos viver com dificuldades e temos que encarar isto com alguma serenidade. Se calhar é mais realista isso do que, por exemplo, ouvir dizer que vão para casa, amanhã nós vamos conter o preço do pão, vamos baixar o preço do combustível. Se nós tivéssemos encontrado uma outra forma de enfrentar isto, explicando as pessoas, deixando de aumentar os preços, subsidiar os transportadores, agricultores, provavelmente hoje estávamos numa outra situação.
As subidas criaram um impacto psicologicamente negativo
Brazão Mazula reitor do ISTEG
Trata-se de uma questão complexa uma vez que a população está a manifestar-se em relação ao custo de vida que realmente é alto, sobretudo agora com o agravamento dos preços. Por um lado a população tem uma lógica e o governo e o Estado têm outra lógica e no meio temos um elemento que poucas vezes nos referimos a ele, que é a globalização. Neste caso, a crise económica internacional mais cedo ou mais tarde se manifestaria muito mais grave nos países pobres e o governo se viu obrigado a aumentar os preços, o que dá a entender que o salário é muito baixo.
O que se quer é uma maior aproximação entre a população e o Estado, por isso eu apelo aos cidadãos para se manterem calmos e voltarmos à serenidade que caracteriza o povo moçambicano e desta forma encontramos a devida solução para pelo menos minimizarmos este custo de vida. As autoridades também devem ter uma calma para se aproximarem e ver quais são os impactos antes de anunciar as medidas que, tal como podemos ver, são cumulativas. Esta acumulação de anúncios de subidas de preços criou um impacto psicologicamente negativo para todo o cidadão. Também apelo para um diálogo entre o consumidor e o Estado.
Nós temos que trabalhar mais na prevenção de crises mais do que na solução das mesmas e também compreendermos que não são muitas alternativas que o Estado tem de, em pouco tempo, minimizar este tipo de crise dada a nossa dependência que é muito forte. Enquanto os outros países ricos encontram formas alternativas de estabilizar ou controlar as suas crises nós não temos. E o controle desta crise não é simplesmente político mas sim é a produção, as exportações nacionais estão muito abaixo daquilo que são as importações. Temos que caminhar com políticas económicas de sustentabilidade de modo a que a médio e longo prazos possamos aumentar a produção. E talvez, se for necessário, adoptar-se medidas económicas corajosas porque penso que as manifestações significam descontentamento e o país não pode caminhar descontente.
Leia mais na edição impressa do «Jornal O País»
TRANSLATE
english
french
spanish
swahili 








Comentários