“Não gostei do que andaste a escrever”,
Manuel Cadeado, um dos suspensos da delegação provincial do INSS de Tete.
Dona Angelina é funcionária do Estado há 36 anos. Está há mais de dois anos à espera de reforma que nunca chega. Durante 36 anos, Angelina desconta parte do seu salário para garantir a pensão. É servente e ganha salário mínimo do Estado, fixado em cerca de 1.800 Mt (mil e oitocentos meticais). Desse valor, 7% - cerca de 126 Mt, incluindo parte do patronato - vão para o INSS. Tem quatro filhos, três dos quais a estudar. É chefe da família. Tem de alimentar e sustentar estudos e outras necessidades dos seus quatro filhos com menos de 1.800 Mt.
Em 36 anos de trabalho no Estado, Angelina apenas conseguiu comprar panelas e outros utensílios domésticos. Nunca teve fogão a gás, nunca foi utente de energia eléctrica na sua casa e nem tem capacidade financeira para adquirir um televisor, etc. Não fosse a caridade de um padre, Angelina não teria até hoje uma casa de um quarto e sala, de construção convencional, onde dorme com os seus quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas, todos maiores de idade, porque o que ganha não lhe dá manobras.
Recentemente, a Angelina foi oferecido um televisor por uma família amiga. A generosidade dos amigos pareceu-lhe um presente envenenado. É que ela começa a viver um outro dilema: precisa de energia eléctrica para alimentar aquele instrumento, mas electricidade custa dinheiro. No seu orçamento, já de si deficitário, não há mais margens para acrescentar uma outra rubrica.
Angelina não sabe que o dinheiro que lhe é descontado para a sua pensão já não existe no INSS. Foi roubado por outras pessoas para sustentarem os seus vícios, adquirirem carros de luxo, algo que ela não sonha; construirem casas de outra galáxia; mobialarem-nas com mesas, cadeiras, sofás, camas, ar condicionados, e todo o tipo de aparelhagem sonora, de refrigeração, entre outros; os seus filhos estudam em escolas privadas de luxo; têm cabeças de gado (...). Não sabe que desconta para o enriquecimento dos outros.
Angelina tomou conhecimento disso através do nosso jornal. E ficou frustrada. O referido jornal está bem guardado na sua maleta. Porque me conhece, procurou-me e fez-me uma série de questões que não pude responder por também ser um simples contribuinte para o enriquecimento de certas pessoas no INSS.
Da preocupação de Angelina conclui que ela tem duas posições: que lhe seja dado todo o dinheiro que lhe foi descontado em 36 anos ou que sejam severamente responsabilizados os autores dos roubos. Eu alinho, também, pelo seu pensamento de que se não existe uma outra instituição onde depositar a minha futura pensão, prefiro que me devolvam todo o dinheiro que me já foi descontado, procurarei investir esse valor, ainda que pouco, no que ainda não tenho que julgo ser a melhor forma de garantir a minha pensão ao invés de canalizar para uma instituição com uma base esburacada, onde quem quer mete a mão e tira a quantidade de massa de dinheiro que quiser.
Com o dinheiro até aqui descontado era possível adquirir pelo menos um terreno para erguer uma pequena casinha, uma forma de garantir uma pensão; é suficiente para a conclusão da minha obrinha...
Constrange-me e frustra-me saber que mensalmente desconto, juntamente com a empresa de que sou empregado, 7% do meu ordenado para o INSS para alguém roubar sem que seja responsabilizado pelos seus actos. Dói saber que indivíduos sem escrúpulo enriquecem às custas dos apertados descontos que fazemos dos magros salários em sacrifícios das nossas famílias. É igualmente triste saber que sacrificamos as nossas famílias a favor de quem desconhecemos, que retira o valor que quiser e como quiser sob uma assistência impávida e serena dos órgãos do Estado.
O caso do INSS da delegação de Tete tem de merecer atenção, desde já, de quem se julga de direito. Não se pode roubar dinheiro dos pobres trabalhadores, sem condições para sustentar a escolaridade dos seus filhos, sem que haja uma acção punitiva severa para os prevaricadores. A comissão de inquérito que está a investigar o escândalo havia detectado, até à penúltima terça-feira, o desaparecimento de mais de 11 milhões de meticais, mais 10 em relação ao valor primeiramente avançado. Até à última quarta-feira, disseram-me que aquele valor (11 milhões) já havia sido ultrapassado, podendo, o dinheiro roubado, ascender a 20 milhões.
Consta que os funcionários ora suspensos possuem, cada um, no mínimo, três viaturas. Um deles, que morreu antes de se despoletar este caso, tinha dois camiões, duas viaturas turismo e 15 cabeças de gado. Simplesmente admirável.
Esta semana liguei para uma das pessoas envolvidas no caso que se dá pelo nome de Manuel Cadeado. Queria ter, conforme me havia prometido na semana anterior, a reacção dele sobre o caso de roubo que pesa sobre si. Perguntei-lhe se já havia sido ouvido, na sexta-feira, conforme me dissera. A resposta foi, no mínimo, interessante: “Eu não fui ouvido na sexta-feira, e ainda não fui ouvido. Mas não gostei do que andaste a escrever”.
Ora, a resposta de Cadeado foi assustadora e demonstrativa de que ele gosta de cortar prioridade a quem o tenta ouvir sobre o caso. Um dos investigadores do caso dissera-me que o mesmo indivíduo, quando solicitado a responder sobre o caso, sempre o faz em tom ameaçador de quem confia em algo, o que “nos deixa um pouco preocupados. Ele tenta cortar-nos prioridade sempre que o solicitamos para responder sobre este caso. Não sabemos em que confia, mas deve confiar em alguma coisa”.
Cadeado tem de saber que eu não escrevo, nem vou escrever e nunca escreverei para satisfazer quem quer que seja. Sempre solicitei Cadeado para dar a sua versão sobre o caso que pesa sobre si, contudo, nunca calaborou, o que me leva a concluir que “quem deve, teme”, porque “quem não deve, não teme” e se não teme, tem de se abrir para explicar o que, de facto, está a acontecer ou o que aconteceu, e por que foi suspenso? Como é que consta do cadastro do INSS como um dos suspeitos e em que circunstâncias? Esse é um exercício simples e não comprometedor para quem sabe que tem um cadastro limpo. Não estou a julgar que ele esteja envolvido, mas que o seu comportamento o acusa e o indicia.
Mais, ele cortou a chamada. Tem a razão de o fazer, o telefone é dele. Mas asseguro-lhe que continuerei à procura da verdade e, para o efeito, tentarei ouvi-lo para explicar os contornos da sua suspensão e da acusação que recai sobre si na instituição para onde me é descontada parte do meu salário para assegurar a minha pensão.
O “caso INSS” insere várias questões das quais as seguintes: como é possível que haja tantos roubos de dinheiro, se anualmente há uma equipa de fecho de contas e uma de auditoria interna que audita as contas? Estaríam estas duas equipas envolvidas na rede central de corrupção instalada no INSS? Por que as contas não são fechadas desde 2004, curiosamente no ano em que começaram os desfalques em Tete? Haverá coincidência ou foi um esquema montado?
Tenho informações de que há uma rede interna instalada na sede do INSS que controla as delegações provinciais, não se sabendo se essa rede parte da auditoria interna ou de outros departamentos. Consta ainda que as contas não são fechadas desde 2004 porque se descobriu que não havia condições para o efeito, devido aos burados abertos propositadamente para arruinar a instituição.
Também tenho informações segundo as quais os roubos acontecem em todas as delegações provinciais do INSS, para além da informação de que um dos antigos dirigentes daquela instituição adquiriu com fundos do INSS uma esferográfica de ouro avaliada em 30 milhões de meticais, o que criou uma situação embaraçosa. Mas são casos ainda por investigar, caso não me cortem prioridade.
Com esta situação, concluo que as auditorias internas não são mais do que departamentos que existem para apagar os vestígios de crime organizado instalado nas instituições de Estado, cujos autores são os corruptos que nelas são encubados. Espero que a auditoria encomendada pela primeira-ministra traga os reais resultados do que acontece no INSS e não apagar as pistas de crime como acontece com outras auditorias.
Espero ainda que os resultados dessa auditoria sejam publicados para o conhecimento de todos os contribuintes do INSS, desde os trabalhadores até aos patronatos







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