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Governo anuncia “boa nova” pascal

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“ A informação do Governo não difere da de alguém que vai a uma família desesperada pelo desaparecimento misterioso do seu único filho amado anunciar que “ele foi encontrado...”. E enquanto a família grita de alegria por ter sido encontrado o seu amado e único filho, o anunciante conclui: “...morto”, ou seja, que “o vosso filho foi encontrado (pausa)...morto”.

O Governo anunciou, esta semana, os novos salários mínimos nacionais. Na mesma conferência de imprensa, anunciou que os preços de combustível sobem 10%, um contraste que causou alarido na opinião pública.  Erro propositado? Ninguém sabe, mas...

Um governo deve ter pessoas que o assessoram. São essas figuras que analisam a situação socioeconómico, até política, a curto, médio e longo prazos. E com base nessas análises e perspectivas, traçam cenários realísticos também a curto, médio e longo prazos. São os cenários que devem conduzir as decisões do Governo em períodos normais e de crises. Quando faltam ao governo estes tipos de análises, perspectivas e cenários, resulta que, em caso de crises, se tomam decisões precipitadas sem antes se saber das consequências que elas podem trazer para o país, em termos económicos, sociais e políticos. Tenho imensas dúvidas que o Governo, quando tomou a decisão de subsidiar tudo, tivesse feito uma análise política, económica e social do país. igualmente, tenho dúvidas que tivesse traçado cenários a curto, médio e longo prazos, porque caso tal tivesse acontecido, creio que hoje não estaríamos a recuar na decisão que tomou no ano passado, quando se viu apertado pelos manifestantes.

É que o recuo do Governo hoje é pior que as decisões que tomou ontem. Ou seja, estas decisões poderão trazer consequências sociais graves, uma vez que o custo de vida vai, sem dúvida, agravar-se exponencialmente. Teremos famílias sem capacidades para ter uma refeição condigna por dia. Várias crianças, nas zonas rurais, poderão abandonar a escola, devido à descapitalização dos seus encarregados de educação. Tenho imensas dúvidas que o passe escolar que se pretende introduzir tenha resultados palpáveis, sobretudo numa altura em que o país, sobretudo a cidade de Maputo, se depara com graves problemas de transportes.

A degradação das condições sociais trará consequências nefastas para o país. Poderemos assistir, num futuro próximo, caso as coisas continuem a este ritmo, revoltas populares; a criminalidade poderá agravar-se. Assim, teríamos uma situação de desordem social.

As decisões do Governo podem ser vistas como um desafio ao povo, no sentido de ver a sua reacção. Por mais certeza que pudesse ter de que a população não irá reagir, o Governo, por respeito, nunca devia anunciar os novos salários mínimos e, na mesma conferência de imprensa, anunciar o agravamento dos preços de combustíveis. O anúncio do agravamento de preços de combustível, que, sem dúvida, irá culminar com a subida, em cadeia, dos preços de produtos da primeira necessidade, nos próximos dias, diluiu toda a importância e o impacto mediático que os novos salários pudessem ter.

O agravamento dos preços de combustível devia ter sido anunciado antes dos os novos salários mínimos nacionais ou mesmo depois, para evitar que o seu impacto não fosse neutralizado pelo reajustamento dos preços de combustível. Confesso que não entendi, até aqui, este contraste do duplo anúncio.

O Governo esqueceu-se que o 1 e 2 de Setembro do ano passado foi provocado por situação semelhante, ao anunciar os novos preços de água, electricidade e outros produtos para 1 de Setembro.

Fico, cada vez mais, com a sensação de que o Governo está interessado em que haja uma nova manifestação. No entanto, não sei por que razão precisaria de desafiar o “maravilhoso povo” para uma manifestação. Talvez para legitimar algo que desconhecemos, porque, caso não haja necessidade de legitimar alguma coisa, não faz sentido que se desafie o povo para revoltas populares, anunciando duas decisões totalmente opostas. A informação do Governo não difere da de alguém que vai a uma família desesperada pelo desaparecimento misterioso do seu único filho amado anunciar que “ele foi encontrado...”. E enquanto a família grita de alegria por ter sido encontrado o seu amado e único filho, o anunciante conclui: “...morto”, ou seja, que “o vosso filho foi encontrado (pausa)...morto”, para a frustração da família.

Na verdade, estamos apenas no campo hipotético. O Governo sabe por que toma essas duas decisões proporcionalmente inversas. Sabe, igualmente, o que confia e como fazer face a uma eventual revoltar popular.

Contudo, reitero que é um “erro apocalíptico” subsidiar alimentos em detrimento dos agricultores. Continuamos a dar dinheiro para o consumo, um custo fixo sem retorno, ao invés de investir esse valor no financiamento aos produtores de comida e na abertura de vias de acesso para o escoamento de produtos. O que o país precisa é de uma séria aposta na produção de bens de consumo e na implantação de indústrias de processamento e conservação desses produtos. Abordarei este tema com profundidade oportunamente.

PS: à última hora, recebi a informação de que o Presidente da República, Armando Guebuza, nomeou Orlando Quilambo para o cargo do reitor da Universidade Eduardo Mondlane. Esta decisão revela que o Governo reconhece que era errado nomear figuras que desconheciam a realidade daquela universidade para o cargo de reitor. A academia e a política são dois campos opostos. Tenho de reconhecer que esta é uma das decisões mais acertadas do Presidente da República, justamente porque Quilambo é conhecedor da realidade da UEM, não precisando de diagnósticos para conhecer a casa, além de que é uma das figuras consensuais na UEM. Igualmente, o Presidente da República, ao nomear Quilambo, um dos propostos pelo Conselho Universitário, valorizou o trabalho deste órgão, ao contrário do que aconteceu na nomeação do anterior reitor, ainda que se tratasse de uma figura de reconhecido mérito. Ora, esperamos que Quilambo restitua àquela instituição a dignidade que merece.

 

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