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A máfia seciliana em Moçambique e no Moçambola?

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Isto revela que o nosso futebol está perante a emergência de uma rede de “Yakuza” e de “Cosa Nostra”, grupos de máfia

O treinador moçambicano, José Arnaldo Salvado, denunciou, em duas cartas diferentes, a existência de esquemas de compra de árbitros e jogadores de futebol com vista a favorecerem durante o jogo as formações compradoras. Trata-se de um fenómeno que há muito se falava, mas que se pecava por não se apresentar indícios suficientes de obrigar a Procuradoria-Geral da República a abrir um processo crime. Com as denúncias de Salvado, acho estarem criadas as condições para que a instituição de Augusto Paulino trabalhe no sentido de destruir a máquina da máfia seciliana instalada no Moçambola. Uma semana foi suficiente para entender que o “modus operandi” de dirigentes de alguns clubes de Moçambola é semelhante ao de grupos de máfias instaladas no mundo. Isto revela que o nosso futebol está perante a emergência de uma rede de “Yakuza” e de “Cosa Nostra”, grupos de máfia. A PGR não só deve investigar a rede de corrupção desportiva como também deverá procurar esclarecer a proveniência de tanto dinheiro que é investido num futebol não comercial. Na Europa, a compra de um jogador representa um investimento que, no futuro, terá retornos. Isto é, um jogador de futebol é uma máquina de fazer dinheiro, através da sua imagem (publicidade), venda de produtos com seu o nome, etc. Foi assim que o Real Madrid Adquiriu o passe de Cristiano Ronaldo por 94 milhões de euros, porque sabia que em cinco anos de contrato recuperaria o investimento feito, incluindo ganhos. Mesmo assim, esses clubes estão – a maioria deles, sobretudo portugueses, espanhóis, ingleses – em falência técnica por dívidas com os bancos. Em Moçambique, não se percebe que certos clubes estejam a investir fortuna num futebol que não mete dinheiro. As receitas de um derby do Moçambola não são superiores a 100 mil MT. Há partidas em que as mesmas receitas não chegam a 30 mil meticais, cerca de mil dólares. É esse futebol que paga salários e contratos fabulosos aos futebolistas. Donde vem esse dinheiro?

Os primeiros sinais da existência de uma rede de máfia e do branqueamento de capitais em qualquer canto do mundo são detectados através o volume de dinheiro que circula em determinadas áreas sem que justifique o nível do desenvolvimento dessa área. As principais fontes de renda desses grupos são o tráfico de droga, de armas, o jogo, fraudes em serviços e obras públicas, lavagem de dinheiro, etc. A máfía adopta, como estrutura celular, clãs e famílias. Grupos ligados a vínculos sentimentais, que procuram imitar os laços familiares, usando os nomes consagrados na literatura, como “padrinho”, etc. Os membros da máfia são conhecidos como homens de honra; na verdade, não passam de assassinos e traficantes frios (A Máfia Siciliana no Mundo, jornal Folha de São Paulo, de 24.03.97). Os negócios da máfia estão globalizar-se, o crime está também a fazer o mesmo, com consequências graves. É que a lavagem de dinheiro, através de grandes projectos, os quais aplaudimos por julgar que vão “dinamizar o desenvolvimento da pérola do índico”, ameaça desestabilizar a economia à imagem do que já aconteceu na Rússia, em que a lavagem de dinheiro era uma normalidade, o que acabou afectando a economia.

Na altura, o crime era a indústria que mais crescia na Rússia e o seu sistema bancário havia se tornado numa máquina de branqueamento de capitais. Aliás, diziam que na Rússia, ontem, era mais fácil comprar um banco do que um carro. Foi assim que surgiu um grupo de oligarcas que tomou a Rússia como seu burgo. Foi assim que surgiram os Boris Berezovsky, Roman Abramovich, Mikail Khodorkovsky, entre outros. A máfia é constituída por organizações precisas, por homens, dinheiro, relações políticas, alianças com outros componentes sociais, tráficos criminosos. Tais organizações mafiosas, diferentemente das organizações criminais comuns, além de serem fundadas sobre uma estrutura interna de carácter hierárquico, sobre a programação permanente de acções delituosas, sobre a guarda de sigilo das relações internas, sobre o reinvestimento dos ganhos ilícitos, e, além de lançar a mão, para impor-se, da violência e do logro da corrupção e da intimidação, exercem um profundo controlo do território, inserem-se, através de actividades empresariais e investimentos aparentemente lícitos, na sociedade, entrelaçando relações com o mundo legal e, em particular, com sectores do mundo político-financeiro. Hoje, não tenho a mínima dúvida que Moçambique foi tomado por grupos de máfia que, primeiro, penetraram no sistema político, através de partidos políticos, os quais directamente recebem valores elevadíssimos para as suas actividades políticas.

A máfia controla, hoje, até o nosso jornalismo, sobretudo, o desportivo, havendo jornalistas que branqueiam resultados através de crónicas de jogos, nos jornais, cortam imagens televisivas que ilustram lances polémicos, em algumas televisões, relatos e comentários pouco comuns nalguns programas de rádio. É daí que muitas crónicas vinham com frases do tipo: “a equipa x ou y reclamou penalty ou fora de jogo, no lance A e B. Quanto à nós, foi limpo”. Usavam sempre o “quanto a nós” para fazer com que a sua opinião seja vista como de um colectivo de jornalistas, ganhando, desta forma, a credibilidade. Viviam, muitos deles, de bancada, lances que mesmo em repetições televisivas eram difíceis de ajuizar.

Bem feita a investigação, tal como disse Artur Semedo, “Ninguém irá sobrar para contar a história desses casos”, porque apanhará, por tabela, também alguns colegas.

 

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