Joseph Nye diz que a China não alcança os Estados Unidos nos próximos 10 anos.
Em entrevista ao jornal brasileiro “Valor Económico”, Joseph Nye, um dos teóricos vivos da Teoria Pluralista nas Relações Internacionais e professor da Universidade de Havard, reconhece que o poder muda de mãos, mas não acredita que a China possa alcançar os Estados Unidos da América, em termos económicos, nos próximos 10 anos. No entanto, acredita que isso pode vir acontecer nas próximas três décadas. O problema é que os chineses não desfrutam, como os americanos, de uma capacidade para atingir corações e mentes, o “soft power”, aquele poder suave capaz de liderar o mundo no campo das ideias e dos costumes.
Nye obteve reconhecimento internacional em dois momentos muito distintos. No primeiro, em 1977, o cientista político americano desenvolveu o termo neoliberalismo para denominar os ideais dos economistas da Universidade de Chicago, então proeminentes no debate público americano e cujo líder, Milton Friedman, levara o Prémio Nobel de Economia em 1976. Segundo Nye, os neoliberais defendiam uma política económica que perseguia a redução do aparato estatal - dos investimentos às agências públicas, passando pela regulação dos negócios - e viam no mercado, especialmente o financeiro, a saída mais razoável para os problemas económicos.
Já em 2004, o seu livro “Soft Power: The Means to Success in World Politics” (Poder suave: a maneira de fazer sucesso na política global, em tradução livre) trouxe para o debate internacional uma actualização da teoria do italiano Antonio Gramsci (1891-1937), que dividia as nações entre as que exerciam um poder de hegemonia dirigente - no campo da cultura e das ideias - e os que exerciam hegemonia dominante - pela via militar.
Para Nye, o “soft power” mais eficaz no domínio de uma nação sobre outras mais pobres era exercido de maneira exemplar pelos Estados Unidos - de onde emanavam os filmes de Hollywood, as celebridades musicais, os políticos carismáticos. Ao mesmo tempo, o “hard power” americano também era forte - o dólar como moeda universal, o poderio militar, a chefia do grupo dos sete países mais ricos do mundo (G-7) e a influência por meio do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Hoje, o neoliberalismo perdeu força diante da emergência de países onde o Estado tem grande influência - como China, Brasil e Índia, em diferentes escalas - e o “soft power” americano é ameaçado pela crise mundial e pelo vazamento de grampos nas embaixadas americanas por parte do WikiLeaks.
Para Nye, que acaba de publicar o livro “The Future of Power” (O futuro do poder, em tradução livre), o Brasil desenvolveu um modelo exportável para outras nações, ao combinar crescimento e democracia, mas não pode deixar a inflação escapar do controlo. Ao mesmo tempo, a ideia de uma teoria para suceder ao neoliberalismo, que alguns economistas chamam de capitalismo de Estado, precisa ser colocada em perspectiva. Tal qual ocorreu com o neoliberalismo, diz Nye, “hoje vivemos outra supersimplificação ideológica na economia, que vê no Estado grande uma solução universal para o capitalismo”.
A seguir, leia trechos da entrevista, publicado há um ano, mas que se mantém actual para o debate político-económico que se desencadeia no mundo em torno da possível mudança do poder do ocidente para o oriente.
Em 2004, quando o senhor desenvolveu a teoria do “soft” e do “hard power”, o mundo vivia o século americano. A China não era estudada com a mesma intensidade de hoje, eram poucos os governos de esquerda com discurso anti-americano na América Latina e as guerras no Afeganistão e no Iraque tinham grande apoio. Depois da crise de 2008, não apenas passamos a ver países como China, Índia e Brasil ganharem mais espaço no noticiário, como o Estado, antes enxugado, passou a ter predominância nas discussões económicas. O poder está a mudar de mãos?
Definitivamente, os países emergentes estão a aumentar o seu “soft power” com uma rapidez sem precedentes. Mas há nuanças entre eles. O “soft power” vem de valores e da cultura e de como as políticas de cada governo são percebidas por outros países, isto é, o jeito como os governantes se vendem. Então, há uma certa atracção por países como Brasil, Índia e China, que nasce do sucesso recente. Mas acho que Brasil e Índia têm um bónus, pois são democráticos. A China, por exemplo, gastou muito dinheiro, alguns biliões de dólares, para aumentar seu “soft power”, com seus institutos confucianos e exposição da marca China no mundo inteiro, mas, ao mesmo tempo, prendeu Liu Xiaobo (escritor e activista dos direitos humanos chinês, preso pelo governo e ganhador do Prêmio Nobel da Paz). Esse tipo de atitude, perante os holofotes globais, corta rapidamente seus investimentos em “soft power”. Já o Brasil, com suas eleições democráticas, a troca de pessoas nos governos, atrai muita atenção, como a Índia. Acho que, sim, o “soft power” dos emergentes está a aumentar, mas penso que a China tem uma tarefa muito mais complexa do que o Brasil em virtude de seu regime autoritário.
E o “hard power” dos emergentes, cresce mais rápido que o “soft power”?
Com 10% de crescimento económico anual e com orçamento militar a crescer ainda mais rápido que o PIB anualmente, o “hard power” da China está a crescer forte e rápido. Mas sempre que o “hard power” de alguma nação cresce forte, ela pode acabar assustando seus vizinhos. E se você assusta seus vizinhos demais - e não tem seu “soft power” para contrabalançar -, podem surgir coalizões contra você. Se olharmos com atenção, as relações actuais da China com Coreia do Sul, Japão, Vietname e Índia estão piores do que estavam há dois anos. Preste atenção: todos esses países querem a presença americana para contrabalançar o poder chinês.
E os americanos têm disposição ou dinheiro para isso?
Certamente podem equilibrar o poder chinês desse jeito. O governo americano tem quase 50 mil tropas no Japão, e os japoneses dão muito suporte financeiro a essas expedições. Não há um grande custo para o orçamento americano. O que os americanos têm de repensar em sua estratégia militar é outra coisa. Deveriam seguir o conselho que (Dwight) Einsenhower (presidente dos EUA entre 1953 e 1961) fez 50 anos atrás: “Não se envolva territorialmente na Ásia”. Embora a guerra no Afeganistão esteja a custar-nos algo como 100 biliões USD ao ano, manter tropas no Japão não nos custa muito, não sei quanto exactamente, mas é pouco comparativamente. Os americanos podem pagar por essas operações, que aumentam a sua influência em terras estrangeiras? Podem, porque os outros nos querem lá. É quando você não é desejado, como no Afeganistão, que fica caro.
Quer dizer que o incremento no “hard power” chinês acaba sendo positivo para os Estados Unidos?
Exactamente. Imagine o México e o Canadá conspirando com a China para reduzir o poder dos EUA. É o que ocorre com Japão, Vietname e Coreia do Sul, que buscam os americanos para contrabalançar o poder chinês na Ásia. A diferença é que os Estados Unidos têm muito “soft power” no Canadá e no México, e a China não tem muito em Tóquio ou em Nova Deli.
Para o estrategista Michael Mandelbaum, a geração dos “baby boomers” (os nascidos entre 1946 e 1964, nos EUA) está a envelhecer e, ao mesmo tempo, os EUA têm de lidar com a crise. Haverá dinheiro para pagar aposentadorias e recuperar a economia?
Se olhar a comissão que Barack Obama destacou para debater o futuro da solvência americana, muitas propostas poderiam resolver os problemas de maneira bem razoável. A questão não é se determinada proposta é pagável, mas se politicamente conseguiremos construir um consenso de forma a trabalhar em torno de um objectivo único. Vemos o início dessas discussões, mas os políticos ainda vão demorar cerca de dois anos para determinar um caminho único.
Por que algum país ficaria atraído pelos americanos no século XXI, após a explosão da crise económica mundial?
No meu novo livro “The Future of Power”, há um capítulo para discutir isso, ou seja, o futuro dos EUA. Argumento que não vejo o declínio americano. O que há é uma ascensão do resto. Em termos absolutos, acho que os americanos vão ficar relativamente bem, mas, em termos relativos, países como China, Índia, Brasil, estão a aproximar-se dos EUA e continuarão a fazer isso. Não que necessariamente eles ultrapassarão os EUA, mas estão a chegar perto. Nesse mundo, os americanos vão precisar de uma estratégia de cooperação e colaboração com os outros. Além disso, é um mundo em que muitas questões vão ficar mais sérias. Temas como mudança climática, segurança cibernética, estabilidade financeira, tudo isso requer cooperação, nenhum país sozinho conseguirá resolvê-los. Os americanos vão ficar com uma política externa mais colaboradora, mais aberta, e isso é muito positivo, mas vai demorar um tempo para que atinjamos esse processo. E acho que Obama está a dirigir-se nessa direcção.
Porquê?
Não sei se ele está efectivamente a dirigir-se à maior cooperação, mas certamente o seu discurso e a sua figura como presidente vão nessa direcção.
O assassinato de Osama Bin Laden pode desarticular o discurso da “guerra anti-terrorismo” e, de certa forma, reverter a perda de hegemonia dos EUA?
O terrorismo depende de drama e narrativa para capturar a atenção da media e impor uma agenda mundial, ou seja, não necessariamente americana, mas de praticamente todos os países. O assassinato de Bin Laden contribui para esvaziar o mito de invencibilidade que ele usou para definir a agenda desde o episódio do 11 de Setembro de 2001. Não é o fim do terrorismo, mas o início de uma série de reveses para a Al Qaeda.
Na América Latina, assistimos à ascensão de governos que renegam o passado recente de seus países, quando a participação americana era muito grande. Vê espaço para os americanos ampliarem seu “soft power” aqui?
Não acho que Venezuela e Equador são a onda do futuro, sinceramente. Se perguntar aos países do continente se todos querem seguir à risca esses modelos, não tenho certeza que encontrará a maioria a responder que sim. Acho que o Brasil é, obviamente, mais importante. Temos visto grande progresso no Brasil. Basta verificar o que fizeram (Fernando Henrique) Cardoso, (Luiz Inácio) Lula (da Silva) e agora Dilma (Rousseff), que também segue o mesmo caminho. São com países como o Brasil que os EUA podem trabalhar muito bem.
A crise de 2008 reduziu o ímpeto da teoria neoliberal e do Consenso de Washington. Com o recrudescimento do papel do Estado, seja absorvendo empresas e bancos falidos nos países ricos, seja ampliando os investimentos e gastos com pessoal nos países emergentes, o senhor vê uma nova teoria económica surgindo?
Algumas pessoas denominam esse modelo pós-crise de capitalismo de Estado, dizendo que esta teoria será maioritária no futuro. Isso é simplista. Da mesma forma que o Consenso de Washington era supersimplificado. Não acho que haja um tipo de capitalismo, mas vários. Na Europa, é possível encontrar diferentes modelos de capitalismo: o praticado por escandinavos, outro pelos alemães, outro pelos franceses e outro pelos ingleses. As pessoas esquecem que havia discordâncias entre os teóricos que participaram daquela reunião que gerou o Consenso de Washington.
Poderia haver alguma divisão, mas, ao fim, era um consenso, não?
O que caracteriza o Consenso de Washington foi uma simplificação grosseira de que os mercados poderiam resolver tudo e que não precisavam do Estado para nada ou muito pouco. Os tempos de mudança, naquela época, permitiram aquilo. Como ocorre agora, não é? Vivemos hoje outra supersimplificação, de que o Estado capitalista resolve tudo. Mas há nuanças entre China, Índia e Brasil, ou a actuação e o tamanho do Estado nesses países é igual? É claro que não.
Como o senhor vê os países europeus na actual situação de dívidas enormes e uma economia de fraco crescimento?
A Europa vive um período diferente em termos de problemas com dívida soberana. Mas quando se olha para alguns anos à frente, sem toda essa urgência do momento, penso que os europeus vão sair-se bem. Nada é garantido, claro, podemos ver novos problemas ou surpresas no meio do caminho. Mas acho que a União Europeia vai sobreviver, e, ainda que não vejamos crescimento rápido entre os europeus, podemos esperar algum crescimento, o que já seria óptimo. Penso que, em algum momento, deverá haver uma reestruturação de dívida na Grécia, Portugal, Irlanda ou Espanha, que são os mais problemáticos.
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