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Religiosa voz do samba

E assim entrámos para a entrevista com Renata  Jambeiro

“Quando desci do navio, era muito miúdo, mas lembro-me como se fosse agora/ o ar quente e quase asfixiante cheiro de gente/ uma sede de tirar o fôlego/ na chegada, só metade estava viva/ aguardava-se guerreiros de Angola leais a rainha Dzinga/...Madinga/ juraram nunca se renderem a escravidão” - Assim se diz no Sambaluayê. E assim entrámos para a entrevista com Renata  Jambeiro.


Era como se fizéssemos uma lenta e recuada caminhada a uma África escrava através do DVD “Sambaluayê” da brasileira Renata Jambeiro. encontrámos-a no seu hotel aquando da visita de  Lula da Silva, acompanhado de Leander Motta, “um cara” que parece perceber muito de África. Antes da entrevista com Renata Jambeiro, fomos, com ele, nos perdendo nessa vasculha intelectual pela África tradicional enquanto reclamava por ter sido “confinado” no luxo da capital quando podia muito bem ver o “Moçambique real”.

De fundo vinha a música precursionada pela sua banda como se quisesse criar base para a nossa conversa e ela falava apaixonadamente da sua religiosidade e da Brasília como o ponto onde se as culturas se encontram. Depois, voltámos a ouvir o seu DVD “Sambaluayê” e sentimos essa sua tendência de fugir o amor porque “Alcione e Maria Betânia o fazem tão bem” e prende-se a um samba de tambores, miscigenação com tendência a divindades tradicionais. Talvez isso tenha contribuído para uma boa recepção pela crítica brasileira.

O jornalista Luís Turiba teria concluído que “o tambor se torna o elo com a ancestralidade e Renata se torna a voz desta história mesclando estes elementos, que se tornaram produto final na música apresentada no DVD”. É exactamente pela crítica que entramos para esta entrevista.

Onde Brasil se encontra

Como é que se justifica que o seu álbum tenha sido bem recebido num meio como o brasileiro, construído por grandes artistas mas também onde a crítica parece estar sempre disposta a atacar?

A recepção das pessoas em relação ao trabalho não é uma coisa tão fora de padrão, porque já existia uma sementinha plantada há um tempo e que fui trazendo tanto na musicalidade, quanto na interpretação. Na verdade, é um trabalho que as pessoas estavam aguardando. Depois de lançar o meu primeiro disco, “Jambeiro”, em 2007, houve uma mudança radical em relação à musicalidade que agente apresenta. O disco “Jambeiro” é um painel do que acontece no Brasil, é o painel do samba no Brasil. Você encontra samba sincopado, samba enredo, samba canção (...) você encontra várias coisas. Enquanto o meu DVD “Sambaluayê” é um outro tipo de pesquisa. Brasília, apesar de ser uma cidade arquitectonicamente maravilhosa e que as pessoas a julgam fria, tem uma efervescência cultural muito grande tanto na área da música como no teatro e na dança. É uma cidade que artisticamente ganha muitos prémios e tem músicos conceituados. Então, a imagem que a Brasília tem para o mundo é muito negativa, por causa da questão política, por abrigar o Congresso Nacional e as coisas que acontecem lá, mas culturalmente é muito agraciada.

Essa  imagem de Brasília artística é  absolvida na construção cultural de  São Paulo, Rio de Janeiro e Baía. Quando surge um nome da capital brasileira, pelo menos internacionalmente, é sempre com alguma curiosidade.

Porque Brasília é uma cidade altamente miscigenada. O que significa isso? O Brasil é feito de gente de mundo inteiro. Quando Juscelino (Kubitschek) resolveu tirar a capital de Rio de Janeiro e levá-la para o centro do Brasil, na Brasília,  ele fez com que as estradas tivessem mais mobilidade, para que o comércio pudesse ter extensão maior, para que o sul pudesse se comunicar com o norte. Culturalmente é uma vastidão de elementos. Brasília abriga o “boi do Maranhão” que é um estrutura folclórica incrível, abriga “Congada”, abriga samba de roda, “o coco”, o baião. Então, o  Brasil inteiro está em Brasília. Por causa da colonização, cada um que foi para o Brasil levou uma coisa muito diferente da do outro. Em Brasília existe uma miscigenação absoluta de cor, existe uma miscigenação musical incrível, existe uma componente artística contemporânea que permite que essas estruturas se misturem. Na esquina você encontra uma igreja católica, de outro lado uma  mesquita, candomblé, umbanda, mas todo o mundo convive e respeita-se. Então, este é o lado de Brasília que ninguém conhece. O meu DVD fala exactamente disso, de miscegenação. É claro que é um samba, mas é um samba com o pé em África, voltado para a nossa ancestralidade. “De onde vem essa mistura? Como é que tudo começou? O DVD fala exactamente disso num momento em que as pessoas estão mais preocupadas em ficar nos seus computadores e falar com um colega. Nós estamos a falar de outra coisa, estamos a dizer  “vamos entender como é que o bicho vive e como é que ele vai ser usado depois como couro. Estamos a ir em contra-mão do que está a acontecer.

África na terra do samba

Arrasta-nos, precisamente, para a religiosidade. O jornalista Luís Turiba, no texto que o caracteriza como “Show de Bola”, fala exactamente da miscigenação e da religiosidade. Encontrámos no “Sambaluayê” uma entrega ao “Candomblê” e “Axé”. Como surge essa corrida à religião?

Brasil é um país oficialmente católico, mas não é exactamente assim como as coisas funcionam. Todo o mundo é católico,  mas tem um pezinho no “Candomblê” e umbanda. Todo o mundo é católico, mas as pessoas frequentam outras religiões. Na escola tem educação católica, mas as pessoas comunicam-se com outras religiões. Os meus pais foram criados no catolicismo, mas durante a vida deles passaram por várias experiências. Eles fundaram, com outras pessoas, o Centro de Umbanda, que é algo brasileiro, porque mistura os “orixás do candomblé” à magia do “candomblé” com a sinceridade dos santos católicos. é monoteísta, porque fala de Jesus Cristo e  junta “pajelança indígena”. Isso, não só religiosamente, mas também culturalmente chama-me atenção, porque antes das pessoas olharem para “umbanda” como algo religioso, deveriam olhar com uma curiosidade  cultural, porque abriga muitos elementos. Eu fui ensinada a ir ao centro tomar a minha bênção, onde, antes de tudo, nos ensinavam a fazer o bem. Quando fui à faculdade, o meu interesse pelo “Candomblé foi crescendo... São coisas bem distintas: o “Candomblé” já tem a questão religiosa muito forte e não só a questão de assistência social como no “umbanda”. É África no Brasil; é a materialização da manifestação artística religiosa africana no Brasil. Então, quando comecei a fazer o DVD, sugeri a Leander Motta, que estava a sentir falta de falar de algo que realmente me instigue, que realmente me chame atenção e que eu acrescente algo. Então, queimei algumas etapas, porque fui pegando com ele algum material. Através dele tive oportunidade de conhecer mais coisas e percebi que era um universo infinito. Então, a gente conseguiu captar alguns elementos. Estou a sentir que é o lugar que mais gosto de actuar - nesta musicalidade brasileira/samba - mas com um olhar virado para África.

Com este “Sambaluayê” estará a fazer um retorno à ancestralidade?

É isso. “Sambaluayê” é o nome de uma das músicas. Conversei com o autor que me disse que falava da mistura do samba e do que representa. É um buquê de samba. “Sambaluayê” é luz de mar, é uma coisa linda, ludibriante. Conversei com o meu “pai de santo” e perguntei o que é que ele achava em usar “Sambaluayê”. Abriu-me um livro com escritas em “ioruba” e mostrou-me que “oluayê”  significa  “deus da terra”, “deus da sinergia”. Então, disse que ia ficar legal no sentido de “samba é o rei da terra” ou “sambaluayê”. Algumas coisas no DVD foram pesquisas pontuais e outras foram intuitivas, coisas que fomos sentindo. Os meus músicos tiveram que passar por vivências até com instrumentos. O DVD tem muito de sincretismo religioso...

Tem sempre essa tendência de regressar à religião. Considera-se uma mulher religiosa?

Uma vez perguntaram-me por que é que eu uso isso? O que tem por trás disso? Quer dizer que é mais religiosa? Eu digo claramente que é a minha vontade de falar disso. Uma vez estava a conversar com o meu director e dizíamos “é engraçado, a gente fala poucas coisas sobre o amor de homem e mulher, sobre o casamento. A gente fala muito de religiosidade, fala muito de músicas que exaltam a condição da mulher miscigenada, mulher negra”. Já existem muitas pessoas fazendo tão bem música sobre o amor. Então, eu disse que não queria fazer aquilo talvez porque não o faça tão bem como Alcione. Ela é maravilhosa cantando músicas de amor. Não há melhor que Alcione para falar de amor. Maria Betania, quando fala de amor é incrível. E, então, por que é que vou seguir isso, se esta parte instrumental do tambor fala mais alto em mim? É claro que acaba passando por esse lado uma música amorosa.

O seu universo também tem um olhar ao mundo político. O Brasil não transferiu a imagem de Lula da Silva para Dilma Rousseff?

Todo o mundo que votou em Dilma, o fez querendo que ela continuasse com o trabalho que Lula fez, mas eu acho que também existe uma renovação. Por ela ser mulher acho que é uma coisa nova, o Brasil ainda é um país machista. É difícil as mulheres serem respeitadas. Então, uma mulher como Dilma no poder levanta auto-estima de qualquer uma e isso é notório.

 

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