Peça teatral que retrata o Ruanda
Duas almas vêm tomar-nos como testemunhas. Um morcego, um belo morcego tropical, e uma falénia, magnífica borboleta nocturna da cor do solo queimado, contam-nos uma história, a sua, a do seu país e a da loucura dos homens.
Estas duas almas eram, outrora, um rapaz e uma rapariga. Esther e Emmanuel, vivendo no Ruanda, país das mil colinas, terra verde, muitas vezes manchado de vermelho dos massacres que se repetiam na sua história. Como todos os jovens, eles sonham, brincam, dançam, choram, crêem, amam mas pequenas tristezas e grandes alegrias, medos e desilusões estão no seu cenário.
Partilham connosco, o seu quotidiano, que seria muito comum fora deste contexto.... Têm os mesmos preconceitos, vivem, gritam ou enfrentam as mesmas preocupações, os mesmos escárnios que em qualquer pátio de escola abonam.
Ou, como pode nascer a violência extrema: anos de estigmatização, de estereótipos bem instruídos e bem formados. Medo e ódio do outro momento. Sob o olhar da natureza o brincalhão do Dito, testemunha universal e cúmplice particular, Esther e Emmanuel crescem no Ruanda de antes de 1994.
Cada um conta-nos os momentos marcantes da sua vida. Dito, o terceiro “personagem” do espectáculo, é universal. Testemunha histórias de todos os tempos, ele não esquece e lembra-nos voluntariamente a história. Ele alarga a nossa reflexão para que não restrinja o seu campo a um só continente.
Isso seria insuficiente! “Vidas para sempre, historias de um genocídio”.
O genocídio do Ruanda que este grupo traz para o palco aconteceu em 1994, entre os meses de Abril a Junho e envolveu duas grandes etnias daquele pequeno País da África Central: os Hutus e os Tutsis. Sabe-se que o Ruanda é um país com cerca de 85 porcento de Hutus, 14 porcento de Tutsis e 1 porcento de Twas. Segundo reza a história, desde a chegada dos belgas naquela região (Ruanda foi o último país de África a ser efectivamente colonizado no fim do século XIX), aqueles trataram de privilegiar antropológica e socialmente uma etnia, os Tutsis, a quem eles designavam de seres africanos superiores aos outros da mesma região chegando a caracterizá-los de descendentes de europeus pela sua fisionomia esbelta, pele relativamente acastanhada e altura razoavelmente média e nariz estreito e comprido.
Portanto, os Tutsis eram considerados mais próximos dos europeus, em detrimento das outras etnias, concretamente a etnia Hutu (maioritária).
Este fenómeno sempre originou discórdia entre os habitantes do Ruanda, facto que teve o seu clímax em 1994 com o acontecimento do genocídio.
História(s) difícil(eis), que se tenta encarnar no palco, mas como abordar o inabordável? Sem lágrimas excessivas, com jovens actores que nos aproximam do público a quem desejam prioritariamente dirigir.
A peça intitulada Vidas para sempre provém de uma ideia original da companhia senegalesa Bou-Saana.
Começa no Senegal quando a companhia Bou-Saana começou a Se interessar na pesquisa e estudo dos genocídios no mundo, suas causas antropológicas, sociológicas e políticas. Aproximando-se de outros autores e artistas, tanto franceses residentes no Senegal bem como artistas senegaleses, tiveram a ideia de escrever um texto dramático em forma de peça teatral sobre esta temática.
Assim nasceu a peça “Des viés a jamais”, “Vidas para sempre literalmente traduzido para português, que foi apresentada por actores da companhia Bou-Saana nos anos 2007/2008, em vários espectáculos e alguns festivais internacionais de teatro na França e no Brasil.
Em Outubro de 2008, o Centro Cultural Franco-Moçambicano iniciou uma pesquisa de talentos, actores de vários grupos de teatro tanto profissionais como amadores para adaptar o projecto em Moçambique.
A criação moçambicana iniciou em Janeiro 2009 quando a directora de teatro francesa Caroline Diata foi convidada para dirigir, montar e encenar a peça em duas versões: francesa, com actores franceses, senegaleses e moçambicanos falando francês) e portuguesa, com actores moçambicanos.
Este espectáculo tem sido apresentado para as escolas e para o público em geral, e neste festival internacional de artes que abarca quase todas as disciplinas culturais, este grupo jovem subiu ao palco para emprestar o seu charme artístico e relembrar o drama vivido.
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