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Um aborto chamado Tunduro

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Um aborto chamado Tunduro
Um aborto chamado Tunduro

 

Artistas que testemunharam a primeira edição do Festival Internacional das Artes dizem que o mesmo não passou de uma autêntica desgraça parida na capital do país

Os ânimos pairavam no ar e os indicadores apontavam para um caldeirão de artes que ia unir culturas dos países presentes na primeira edição do festival Tunduro. Mas como é apanágio, a montanha pariu um rato, a avaliar pela falta de seriedade, de organização e de coordenação por parte da produção do evento.

Baseando-se no cardápio do festival em nosso poder, por um lado, caem frustradas as expectativas do festival, mas, por outro, é preciso sublinhar o esforço e cometimento dos artistas em oferecer três dias de extrema exaltação das artes.

Os grupos empenharam-se e desdobraram-se em ensaios para a sua apresentação, mas, paradoxalmente, não se apresentaram durante o festival. A organização, pagamento de cachets e adiamentos repentinos de shows fizeram com que o público que acorreu em massa ao festival não degustasse do trabalho dos artistas que apreciam.

Estamos a falar da actuação do grupo Milorho, que estava agendada para domingo, no cine África, às 19h00, onde havia, às 18h30, um show de Lucrécia Paco. Pior é que nem sequer o show de Lucrécia se realizou, alegadamente porque não havia iluminação, som, entre outras questões logísticas.

Ora bem, se nos questionarmos quem é culpado por este embaraço entre os grupos, o público e a produção, a quem apontaremos o dedo? Quem também ia apresentar- se no mesmo dia e local seria a Companhia Nacional de Canto e Dança, mas que também não se sabe por que carga de água não subiram ao palco, provocando ira aos que para ali se deslocaram e deparar- se com as portas encerradas.

Pretendia-se que o festival juntasse diversas disciplinas culturais, com destaque para música, dança, artesanato, teatro, gastronomia, fotografia, moda, artes plásticas, entre outras, mas alguns gigantes destas manifestações não se apresentaram.

Segunda-feira, após a realização deste festival, que deixa muito a desejar, estivemos no Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), local que acolheu maior parte das actuações, e em nenhum momento ouvimos indícios que apontam para uma satisfação. Ouvimos pelo menos quatro grupos a reclamarem de cachets, outros a reclamarem de roubos de equipamento de trabalho, e até do nível de organização.

O nosso jornal quis ouvir da produção do evento o balanço desta actividade, numa altura em que diversas vozes artísticas do país, bem como o público no geral, apontam para uma total desgraça parida em Maputo.

Filimone Mabjaia, proprietário da empresa Sonarte, instituição responsável pela organização do evento, afirma que o balanço da primeira edição do Festival Tunduro foi um sucesso. “O balanço que faço sobre a realização da primeira edição do Festival Internacional das Artes, que terminou último domingo, em Maputo, é positivo, considerando que tivemos uma oportunidade ímpar de estar ao lado de grandes fazedores da cultura moçambicana, assim como estrangeira”, considerou Mabjaia, para depois acrescentar que “Foi positivo, atendendo e considerando que a sua organização passou de pessoas sem nenhuma formação para tal e que conseguiram dar o seu máximo para o bem das artes”. Sob ponto de vista económico, acrescentou, o país obteve ganhos relevantes, tendo em conta que, por um lado, diversas estâncias hoteleiras alojaram os artistas, por outro, os artesãos tiveram uma oportunidade ímpar de multiplicar as suas vendas, o que constitui um dado fundamental. “Tirando a ausência do músico ganês Sir. Block, todos os artistas internacionais que foram chamados para o festival, com destaque para os da Alemanha, Estados Unidos da América, Sérvia, Espanha, África do Sul, Costa do Marfim, Portugal e Mali, marcaram a sua presença. Na verdade, foi um autêntico encontro com os criadores das artes, e esperamos que o mesmo se repita na próxima edição”, disse.

Por seu turno, artistas que participaram no Festival Internacional das Artes que pautaram pelo anonimato, por temerem possíveis represálias por parte dos organizadores, lançaram duras críticas à organização do evento: “Nós ensaiámos durante semanas, na Associação dos Músicos Moçambicanos, e, no dia marcado para o show, nos fizemos presentes ao local, concretamente na fortaleza de Maputo, só que, quando eram precisamente 22h00, foi-nos enviada uma mensagem dizendo que o nosso espectáculo estava cancelado, sem quaisquer motivos avançados. Nós já estávamos no local, o público também, mas, infelizmente, não actuámos. os motivos, até hoje, ainda não foram revelados”.

Para os artistas que por sinal tiveram contratos assinados com a organização do festival, repisaram que a má qualidade organizacional do mesmo deve ser tornada pública, de forma a não se repetir o mesmo. “É preciso que se fale verdade sobre o evento. nós somos artistas e temos uma imagem por zelar perante o público que admira o nosso trabalho.

É preciso que a organização apareça em público e peça desculpas pelo sucedido, com vista a limpar a nossa imagem defraudada”, desabafaram os músicos. Além dos músicos, o grupo de dança Milorho também não pôde deliciar os seus fãs com o melhor da sua dança.

A suposta má organização do festival deixou também alguns jornalistas culturais da praça agastados. Os mesmos acusam a organização do evento de os ter tirado fotografias para fins de acreditação para o evento, facto que não aconteceu porque as credenciais emitidas não têm nenhuma imagem fotográfica, o que leva a imprensa a questionar o destino que foi dado às fotografias.

A falta de imagens fotográficas nas credenciais, segundo apurámos no Centro Cultural Franco-Moçambicano, contribuiu de certa forma para a desorganização do evento, dado que um músico de nacionalidade alemã foi impedido de actuar, por os seguranças o terem confundido com um intruso.

Estes e outros aspectos que marcaram pela negativa a organização do evento, foram-nos confirmados por Filimone Mabjaia. “Na verdade, as credenciais não tiveram imagens fotográficas, e isso deveu-se ao curto tempo para a finalização dos mesmos. Mas quero esclarecer que o músico alemão que foi proibido de entrar no franco, foi porque não quis seguir os trâmites protocolares traçados”, disse Mabjaia.

Quanto à questão do atraso no início de alguns eventos inseridos no festival Tunduru, bem como do cancelamento de algumas actuações, Mabjaia assume, mas lança a batata quente ao Conselho Municipal da Cidade de Maputo. “O cancelamento do concerto antes previsto para a sua realização na Fortaleza de Maputo, deveu-se à chegada tardia da licença por parte do Conselho Municipal. Não gostaria de comentar muito sobre este assunto. Quanto aos músicos que não puderam actuar naquele local, garanto que brevemente poderão fazê-lo, mas num outro fórum”, sublinhou Mabjaia.

Refira-se que, hoje, a organização do festival vai reunir-se com os músicos, com vista a ultrapassar-se este problema.

 

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