Músico Aly Keita em Maputo
É fundamental que todos nós sejamos capazes, como artistas, de partilhar e transmitir conhecimentos, porque é através de novas ideias que vamos construir uma identidade, e isso tem que ver com a passagem pelo aprendizado académico.
A música tem esse lado mágico de tornar grande até os que se apresentam aparentemente pequenos. É como se se introduzisse neles uma “poção mágica” ao jeito gaulês de Astérix. Mas nada de viagem. Voltemos à música para nos posicionarmos no “west África”, onde Salif Keita cantou “Afrika”, Youssou Ndor entrou para “Mbirima”, enquanto Ismael Lo gritava por “Demokratie”.
E da Costa do Marfim, onde o futebol, por Drogba, fez esquecer a guerra, Aly Keita tirou os políticos da música: “não é feita (a música) de discursos.”
O costa-marfinense Aly Keita é o exemplo de que não é preciso ter uma estatura grande para se ser um artista com uma dimensão grandiosa. Tem 41 anos de idade e musicalmente já conquistou o continente africano e outras regiões do mundo. Está actualmente em Maputo.
Um dos grandes motivos que o incentivam a continuar a sua carreira é a sensibilidade que consegue transmitir aos povos dos países por onde passa. Mas como é que um africano olha para si e para tudo o que está ao seu redor? A entrevista a seguir responde a essas e outras questões.
O que é para si ser um artista africano?
Estou orgulhoso de ter nascido e de ser um artista em áfrica, não só por poder continuar com as tradições das minhas músicas e da minha arte, mas por viajar com esta arte e poder mostrar ao mundo a minha africanidade, o meu continente, através da minha cultura e da minha musicologia.
Como se define, como músico?
Eu tento ser um artista muito simples. não sou um homem de negócios, mas tento passar uma boa palavra, passar uma mensagem de amor, de paz. estou constantemente preocupado com o futuro das crianças que vão nascendo e crescendo, e tento passar, sempre que posso, esta palavra de preocupação com o futuro, de entendimento entre as pessoas, de paz no mundo, e de muito amor.
O que procura em cada país por onde passa?
Para mim, a música não é política. Ela não é feita de discursos de homens políticos que estão sempre a dizer que vão fazer alguma coisa. Cada vez que viajo, que entro num país, tento criar uma comunicação directa com o público que está ao meu alcance. Eu sei que, quando vou a um país, levo novos sonhos, novas ideias. e para o caso de Moçambique, estou a trazer esses sonhos, histórias que não se conhecem que vou partilhar com o público deste país. Sei que deste público vou aprender novas cores, novas histórias, novas maneiras de estar através da relação que vou ter com as pessoas. Para mim, é sempre importante criar uma relação humana, onde possamos entender-nos através de gestos, música, melodia; através do contacto humano, como músico que sou.
O que mais o incentiva a continuar a sua carreira?
O que me incentiva, me dá inspiração e força para continuar, é, primeiro, a saúde. Para mim, a saúde é o primeiro elemento que nos permite sonhar e acreditarmos que tudo é possível. Temos que nos sentir fortes para podermos avançar. A segunda coisa é a surpresa que eu vou encontrando; a diferença que noto em cada espectáculo que faço. A relação que tenho com o público é sempre diferente. Toco frequentemente em diferentes públicos, que não falam a minha língua, mas com essa música, gestos e ritmos, há no final do concerto pessoas que choram, pessoas que aplaudem, que sentiram de certa maneira a mensagem, a história que quis passar. Depois do concerto, as pessoas vão se embora com tudo que lhes ofereci. E é essa força que me faz continuar a acreditar que este sonho (cantar) não acabou de ser vivido.
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