Crónica.
Todos já eram corruptos ou corruptores em Fim-de-Mundo. Sim, todos já eram mais dedicados ao dinheiro ilícito, pedindo recompensas por todo o serviço a todo o cidadão. Até o serviço que era do seu respectivo dever, devidamente remunerado aos fins de meses.
E, dentre os corruptos, havia Inconstante Constâncio, homem que exercia com zelo e dedicação a sua corrupta prática, conforme as hodiernas e malvadas ordens. Ele jamais defraudou expectativas dos seus apoiantes. Falo dos que com ele trabalhavam de forma abnegada para o desenvolvimento da corrupção e para o combate aos homens de excelente educação, os morigerados.
Inconstante Constâncio trabalhava para a Polícia de Tráfego de Fim-de-Mundo. Os seus deveres eram: controlar os veículos que caminhavam em excesso de velocidade e em velocidade excessiva, policiar os condutores que moviam os veículos em estado de embriaguez; entre outras ilicitudes rodoviárias. Mas, não escassas vezes, exigia outras coisas imprevistas por lei, quando a todo o custo queria arrancar trocado dos automobilistas: capacete; guia de marcha; luvas de condução; e outras desnecessidades.
Certa vez, de resto, Inconstante quando estava no seu respectivo posto de trabalho, nas bermas de qualquer estrada, interpelou uma viatura, conduzida por um automobilista em estado de embriaguez. Ademais, a viatura era demasiado pesada, imprópria para andar pelas ruas, frágeis, de Fim-de-Mundo. Sim, só devia andar a viatura numa via dura, as rodas a confrontarem-se com a rigidez do pavimento da mesma.
E quando o automobilista, ora interpelado, concentrou-se a cumprir as exigências do fiscal rodoviário, ouviu do fiscal:
Vinhas em velocidade excessiva e estás bêbedo. Você bebeu!
Não bebi, chefe. Apenas tomei uns copos de cerveja clara.
Retrucou o automobilista.
Então, vamos soprar balão. Ordenou o homem da lei e ordem.
Soprar balão coisa nenhuma, pois o automobilista, de nome Distância Esquivado, começou a criar condições para corrupção. Foi dizendo que, apesar de ter ingerido alguns mililitros de álcool, ele estava lúcido, capaz de exercer qualquer actividade. Até podia fazer “um quatro”, esse teste que se exige comummente para se confirmar a lucidez de um suposto embriagado.
No seguido, Distância Esquivado desceu do carro e conduziu o agente da polícia de Tráfego para o lado traseiro do carro. Disse-lhe que daria qualquer coisa em troca de detenção e parqueamento da viatura pelas infracções cometidas, para a satisfação do polícia. Afinal, o polícia estava à espera de pessoas abertas: aquelas que cometiam erros rodoviários e logo vinham deixar algum trocado para facilitar o perdão.
Distância Esquivado pagou dois mil meticais e seguiu com a marcha. O polícia ficou a vencer delícias do produto da sua malvada prática: a corrupção. É caso para dizer que o dinheiro resolvia tudo em Fim-de-Mundo.




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