A escrita desassossegada de Eduardo White.
“A cultura deve ir à rua!” – o poeta tinha o cotovelo direito encostado à mesa e o corpo inclinado ligeiramente para o mesmo lado, enquanto gesticulava. Eduardo White tinha abandonado as míticas mediatecas e hotéis de luxo onde, geralmente, se lançam os livros, para dar a conhecer as suas duas últimas obras “O Libreto da Pobreza” e “A Mecânica Lunar e A escrita Desassossegada”.
White tinha conseguido levar “cultura” à rua, isto é, a um bar da sua zona residencial, na Vladimir Lenine. Foi de lá que falou de “um povo todo que chumbou” ao fazer um “back” aos resultados da educação, onde as reprovações foram o destaque. Mas, se não tivermos em conta a cultura – diria isso White –, podemos continuar a assistir essa vergonha. Ou, então, podemos presenciar a transformação de “feses em teses”.
Mais do que essas reflexões de White no bar da Vladimir Lenine, os seus livros apresentavam-nos o poeta que aprendeu a reinventar as fórmulas da sua escrita. Seria um lugar comum repetir que “estamos perante um poeta de amor”. White transcende esse simples espaço romântico e apresenta-nos em “A Mecânica Lunar e Escrita Desassossegada” um poeta acutilante e revoltado.
“Vocês cospem na poesia como vos é costume cuspir num serviçal. Pagam pouco com medo de que vos limpem muito do lixo que sois”, escreve em “A escrita desassossegada”.
Melhor teria sido começar assim. Eduardo White parece ter decidido escrever dois textos em um. O primeiro, que se chamaria “A Mecânica Lunar”, e o outro, “A Escrita Desassossegada”. No primeiro, o escritor faz uma caminhada pelo espaço, uma espécie de astronauta a seu jeito. É onde, depois de uma longa dissertação, chega a uma conclusão. “Mental é o imaginário determinado quando a Lua é tão definida e pura e vive no tamanho que usurpa a clausura terrestre que a mingua.”
Se em “Mecânica Lunar” White faz uma viagem lunática, e até nos diz o que quer quando morrer: “O que quero, quando eu morrer, haverá de ser TUDO o que a morte me levar do quase NADA que a vida se prestou a roubar-me. Tão somente isso eu quererei quando eu morrer.”
Escrevíamos que se em “Mecânica Lunar” nos encontramos numa forte viagem pelo espaço que culmina com esse desejo pós-morte, em “A Escrita Desassossegada”, ele volta à terra e assume outras preocupações.
“Voltando ao cigarro” – escreve – “A tosse lembra-nos o vício próprio e cancerígeno que a nós outros perturba...”.
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