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Memórias de um espectáculo

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Memórias de um espectáculo
Memórias de um espectáculo

O dia em que Chico inventou a música

Tinha prometido uma visita à sua memória. Assim recriou-se em pensamentos um espectáculo que faria uma viagem pelos tempos de bacela como “Merkandonga”, onde todos reclamavam: o cliente e o vendedor. “dizem que estamos a burlá-los, mas não sabem que também compramos a preço elevado”, justifica-se uma das vendedeiras na música que já nesse “antigo tempo” mostrava a importância das influências: “unga mu dzivale Ibrahimo”, que quer dizer não te esqueças do Ibrahimo, é um velho cliente, passe-lhe o camarão por trás, para que os outros não se apercebam”. Essa música saltava da plateia nos intervalos dos outros temas que Chico António ia interpretando. Era como se se lembrasse a estrela que havia uma música escondida na sua memória, tal como “hanthlisa maria” – depressa Maria, arrume as suas coisas, que há um carro que vai a Gaza.

A província de Gaza era vista como ponto de partida para o desenvolvimento. Podia também simbolizar o campo, que se podia – também nessa altura – ver como o pólo de desenvolvimento.

Era nessa província onde residia o sonho de alimentar o país com o arroz de Chókwè.

As performances de Chico António têm, para o artista, o dilema de criar “espectáculos paralelos”. É como se o público respeitasse as escolhas do artista, como também a exigir que o mesmo decorresse a seu compasso. E foi com muita classe e segurança, acompanhado por nomes como Carlitos Gove, Paíto Tcheco, Rufus e Simão. Juntou ainda vozes femininas e levou um violino para sublinhar as músicas.

Quando, semana passada, se fez ao Franco-Moçambicano para um “back to the time”, foi buscar temas marcantes como “Baila Maria”. Na Orquestra RM, Chico António fez com Mingas uma das mais brilhantes duplas deste “país da marrabenta”, como diriam os Gpro Fam. A ideia, contou Chico António ao “O País Fim-de-Semana”, quando compôs a música, era cantar sozinho e em português, mas depois, convencido pelos seus “bosses”, juntou a brilhante voz de Mingas e mudou-a para “tsonga”. Nasceu assim um dos clássicos deste “alquimista” da música que faria Manu Dibango abandonar o seu sossego e entregá-lo o Prémio Rádio França Internacional. “Depois disso, senti que já não era mais o mesmo”, disse. E tinha razão, “já não era mais o mesmo”.

Nos seus espectáculos, o do “Franco” não foi diferente, encontra-se esse Chico António que faz experiências e aceita todas as influências. “Escuto todo o tipo de música, até rock metal”. Mas esqueceu-se de dizer que a sua música carrega toda essa dose, como nos levando pelos becos sul-africanos, na lembrança, mesmo que à distância, de Sipho Mabuzi, ou então numa quase doce e lenta morte de reggae que podia confundir-se com uma voz emprestada de Alpha Blondy. Depois, posiciona-se como um “soba” e dita o ritmo que o público tem de dançar. Serve com uma tendência blues as cadências de uma noite, nesse raro jeito de arrancar aplausos com “Comer Camarão”.

Leia mais na edição impressa do «Jornal O País»

 

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