O dia em que Chico inventou a música
A província de Gaza era vista como ponto de partida para o desenvolvimento. Podia também simbolizar o campo, que se podia – também nessa altura – ver como o pólo de desenvolvimento.
Era nessa província onde residia o sonho de alimentar o país com o arroz de Chókwè.
As performances de Chico António têm, para o artista, o dilema de criar “espectáculos paralelos”. É como se o público respeitasse as escolhas do artista, como também a exigir que o mesmo decorresse a seu compasso. E foi com muita classe e segurança, acompanhado por nomes como Carlitos Gove, Paíto Tcheco, Rufus e Simão. Juntou ainda vozes femininas e levou um violino para sublinhar as músicas.
Quando, semana passada, se fez ao Franco-Moçambicano para um “back to the time”, foi buscar temas marcantes como “Baila Maria”. Na Orquestra RM, Chico António fez com Mingas uma das mais brilhantes duplas deste “país da marrabenta”, como diriam os Gpro Fam. A ideia, contou Chico António ao “O País Fim-de-Semana”, quando compôs a música, era cantar sozinho e em português, mas depois, convencido pelos seus “bosses”, juntou a brilhante voz de Mingas e mudou-a para “tsonga”. Nasceu assim um dos clássicos deste “alquimista” da música que faria Manu Dibango abandonar o seu sossego e entregá-lo o Prémio Rádio França Internacional. “Depois disso, senti que já não era mais o mesmo”, disse. E tinha razão, “já não era mais o mesmo”.
Nos seus espectáculos, o do “Franco” não foi diferente, encontra-se esse Chico António que faz experiências e aceita todas as influências. “Escuto todo o tipo de música, até rock metal”. Mas esqueceu-se de dizer que a sua música carrega toda essa dose, como nos levando pelos becos sul-africanos, na lembrança, mesmo que à distância, de Sipho Mabuzi, ou então numa quase doce e lenta morte de reggae que podia confundir-se com uma voz emprestada de Alpha Blondy. Depois, posiciona-se como um “soba” e dita o ritmo que o público tem de dançar. Serve com uma tendência blues as cadências de uma noite, nesse raro jeito de arrancar aplausos com “Comer Camarão”.
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